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Não Fui Expulso da ABA. Pedi pra sair ao constatar total compromisso e submissão da ABA ao Movimento Indígena – Edward Luz

Nota de Esclarecimento

Ontem, quinta-feira dia 15 de maio do corrente ano tomei ciência de que a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) teria, agora sim, de fato efetivado meu já ameaçado, anunciado e prometido desligamento dos seus quadros.

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Mesmo lamentando tal decisão e renovando meus sentimentos de desapontamento com ela, informo que tal estratégia não é surpresa de forma alguma e já a aguardava há muito tempo, tendo em vista o contexto sociológico do aumento de pressão interna motivada pelo crescimento do grupo de militantes e ativistas que se avolumaram em força e poder dentro da ABA na última década até chegarem a impor sua agenda, seus valores e compromissos ao corpo desta, um dia prestigiosa, mas atualmente ameaçada associação antropológica.

Desnecessário dizer do meu respeito pelo ofício e saber antropológico ao qual venho me dedicando com esmero e esforço ao longo de mais de 16 anos, tendo conhecido a mais de 30 grupos étnicos no Brasil e tendo o privilégio de conviver e trabalhar com alguns destes e prover assessoria antropológica à algumas desta associações indígenas. Mais do que tudo, tive o privilégio de servir à alguns desses grupos, à sociedade brasileira e ao Estado ao atuar como Antropólogo Coordenador de 2 Grupos de Trabalho de Identificação e Delimitação responsável pela identificação de 8 Terras Indígenas, todas elas no estado do Amazonas.

Talvez seja necessário dizer e ressaltar minha admiração pela honrosa contribuição dos pais de nossa ciência antropológica em território nacional, que com muito esforço e as vezes com altos custos pessoais, trabalharam, suaram e muito se contribuíram para formação de tão relevante disciplina. São nomes como Edgard Roquete Pinto, Luis da Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, Charles Wagley, Eduardo Galvão, Darcy Ribeiro dentre outros que ajudaram a construir e consolidar o prestígio que a antropologia ainda goza (?) não se sabe por quanto tempo ainda, perante a opinião pública nacional.

Por isto mesmo me sinto indignado e revoltado ao ver e testemunhar este lento, mas inexorável processo de infiltração, promoção e perpetuação ideológica à qual está sendo submetida nossa disciplina tão importante para a compreensão da alteridade étnica e cultural dos grupos e sociedades indígenas em território nacional, bem como para compreensão de nossa identidade nacional essencialmente mestiça.

Um dos fatos comprometedores que venho constatando é que: sabedores do monopólio institucionalizado que os antropólogos detêm sobre a fala técnica e aceita pelo estado brasileira na causa indígena e quilombola, tais militantes e ativistas avançaram para o front acadêmico, dominaram e continuam ingressando em peso na antropologia para dela valer-se como instrumento disposto a sempre atender suas demandas e conceder legitimidade científica para todos os seus projetos micro e macro-políticos de expansão de territorial e do poder simbólico que vem se impondo com força crescente à sociedade brasileira. De tentativas de impedir o asfaltamento de rodovias, à construção de barragens hidrelétricas no Brasil, à tentativa de criação de uma incabível e inaceitável terra indígena em Brasília, não há um projeto político do movimento indígena que esta ala radical dos antropólogos que tentam monopolizar a ABA para si, não tenham endossado; seja por meio de seu vigoroso apoio pro-ativo seja pelo silêncio que coaduna. Tal postura se exacerbou na última década, chegando a um ponto em que, ao menos para mim, se tornou inaceitável e reprovável para uma instituição acadêmica e científica que devia zelar pelo livre pensar e pela produção autônoma do conhecimento científico. Já há anos não me sentia representado por esta associação, mas tentei e fiz o que podia para corrigir esta tendência quando dentro desta Associação. Confesso que não consegui. Em cumprimento à minha livre consciência, achei por bem pedir para sair até que tal tendência política e ideológica seja refreada e equilibrada por regras e fatores democráticos que devolvam à ABA a seriedade e a credibilidade pela qual ela sempre se caracterizou e foi respeitada.

É minha avaliação que tal grau de compromisso e submissão de muitos de meus colegas e sobretudo da diretoria da Associação à esta agenda política do movimento indígena coloca sérias dúvidas sobre a autonomia do fazer antropológico, e logo joga insanáveis questionamentos sobre a credibilidade e a capacidade de emissão de laudos e pareceres técnicos que, em tese, deveriam zelar pelo compromisso com a verdade, com a isenção e com a imparcialidade. Não é o que a sociedade brasileira tem testemunhado ao longo dessa última década.

Trata-se de um uso abusivo que uma parcela crescente de militantes e ativistas engajados vêm cometendo com a antropologia brasileira com a qual não concordo, não subscrevo, não corroboro, mas pelo contrário, venho insistentemente denunciando desde o primeiro semestre de 2010.

Infelizmente, desde minha primeira vez que denunciei tal estado irregular das coisas, numa palestra proferida na segunda semana maio de 2010 é que venho sendo pressionado e sofrendo forte oposição, primeiro por colegas antropólogos, mas ainda no mesmo ano pelo Comitê de Ética, que vem reiteradamente tentando me silenciar, me desacreditar ou a concertar e reconsiderar minhas declarações à imprensa no que penso sobre a atuação dos antropólogos nos processos demarcatórios. Em duas ocasiões respondi ao Conselho de Ética da ABA sustentando e reafirmando minha posição de que lamentavelmente alguns antropólogos, seja por compromissos pessoais, voluntários e ideológicos, seja por compromissos financeiros ou por vínculos com organizações não governamentais, vem cedendo.

Acontece que face à tal constatação do compromisso e da submissão destes antropólogos aos interesses da agenda e do movimento indígena serem a maioria dentro da ABA, pedi para sair e ser formalmente desligado desta Associação Brasileira de Antropologia antes de qualquer deliberação da ABA a este respeito; de modo que não aceito esta descrição errônea, humilhante e vergonhosa descrição de que eu teria sido “expulso” da ABA. Não fui Expulso da ABA. Pedi pra sair ao constatar total compromisso e submissão dos antropólogos que compõem boa parte da ABA ao Movimento Indígena cada vez mais sustentado e financiado pelo capital estrangeiro.

Assim que puder, irei até a sede da ABA em Brasília formalizar pedido solicitando que sejam corrigidos estes erros de informação veiculados por este Tuíte da ABA (que consta na foto acima) em sua conta no Twitter (@aba_ant) e em seu perfil no Facebook:

https://www.facebook.com/ABA.antropologia/posts/575399322480930?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

Esclareço por fim que a antropologia é em essência uma ciência interpretativa que sempre prezou pela diversidade de opiniões e interpretações. Mas esta tentativa descarada de impor e manter à toda força uma interpretação única, enviesada e ideológica dos fatos é só mais uma prova do patrulhamento e da perseguição ideológica à qual está submetida parte dos antropólogos e da qual estou sendo vítima.

Aguardarei ansiosamente este dia, quando poderei retomar o diálogo e a convivência com meus colegas antropólogos, pelos quais tenho o mais elevado respeito. No momento estou sendo vítima do mais violento ataque da patrulha ideológica de ativistas e militantes que percorre a internet e as redes sociais à procura de um inimigo a quem condenar à fogueira ardente do século XXI. Espero sobreviver para poder ver mudar tal postura e raiar o equilíbrio, o bom senso e a democracia dentro desta ala da academia.

Sem mais a declarar no momento, me coloco à disposição de quem quiser para prestar maiores esclarecimentos.

Att, Edward M. Luz. Antropólogo Social. Mestre e Doutorando em Ciências Sociais UnB.

De Revelando Segredos da Tribo, 16/05/2013.

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One Response

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  1. Leão says

    Parabéns ao antropólogo Edward Luz. A Associação Brasileira de Antropologia tem sido não só silenciosa, mas propulsora da ideologia mestiçofóbica que tem orientado a política indigenista dos últimos governos brasileiros. Quando a ABA defendeu mestiços? Quando a ABA condenou teses que negam nossa etnia? Quando a ABA condenou teses e laudos antropológicos que consideram como indígena o que é parte de nossa cultura mestiça? Você não perdeu nada afastando-se da ABA, pois esta organização já mostrou a que serve.



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