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Mestiço não é índio: a tentativa de apropriação e indianização da cultura do povo mestiço (I) – Leão Alves

Nos últimos tempos aqui no Brasil apareceram grupos que estão tentando apropriar-se de nossa cultura mestiça, eliminar nossa identidade étnica e monopolizar nossas heranças culturais e territoriais nativas.

Parte do que tem sido divulgado pela mídia indigenista e indígena para retratar o sofrimento dos povos indígenas originais – e desse modo mover a opinião pública no sentido de criação de territórios exclusivos – tem aspectos relativos ao povo mestiço brasileiro que são pouco ou raramente observados.

Uma dessas idéias é a de que haveria uma dívida histórica para com os povos indígenas devido à escravização, à invasão de terras, a violências morais e físicas. A história mostra, porém, que havendo uma dívida pelos sofrimentos dos antigos indígenas, os originais, é a nós nativos mestiços que ela deve ser paga.

Certa vez, quando participava de uma conferência de igualdade racial em Manaus como um dos delegados da representação mestiça no evento, após muita dificuldade para conseguir dispor da palavra (pois é quase uma regra nestes eventos de igualdade racial nós mestiços sermos objeto de grande hostilidade por determinados grupos políticos e de afirmação étnica que se empenham em evitar que nos expressemos), comentei que os descendentes dos indígenas escravizados, violentados, expulsos a força nos descimentos, somos nós mestiços. Os mestiços descendem dos indígenas que não escaparam da escravidão; os indígenas que se mantiveram em suas comunidades e seguindo seu modo de vida foram os que  não foram escravizados – o raciocínio é similar a: se tem que haver um pagamento ou outra compensação pelo escravismo de africanos ele deve ser pago aos descendentes dos escravizados e não aos africanos que hoje residem na África. Uma dívida, por não se observar isto, não está sendo paga ao credor correspondente.

Quando se trata desse assunto, a primeira ideia que aparece em muitas mentes é a de uma dívida do europeu ou do ‘homem branco’ para com os indígenas. Criar territórios indígenas (demarcar e homologar, na linguagem deles) e expulsar os ‘brancos invasores’ ganha aparência de justiça.

A realidade histórica, porém, é bem diferente da propaganda. Os colonizadores portugueses uniram-se com indígenas e geraram filhos nativos mestiços. Mestiços não são “homens brancos”; não embarcaram em caravelas na Europa, atravessaram o Oceano e tomaram terras indígenas. Mestiços são nativos gerados pelos próprios indígenas, nascidos do ventre de mulheres indígenas e dentro das comunidades indígenas, aspecto pouco lembrado. Mestiços não são invasores.

Os terríveis prejuízos para o povo mestiço expulso impiedosamente quando são criados territórios exclusivos para índios exige que a relação de cerca de 500 anos entre indígenas e mestiços mereça ser revisitada e a questão de se há uma dívida histórica de indígenas para com mestiços ganha importância.

Li o artigo O resgate de dívida histórica com os borari, da antropóloga Iza Tapuia, publicado na Gazeta de Santarém, no dia 19 último. No artigo, a autora expressa idéias equivocadas sobre a identidade mestiça do caboclo. Idéias inverídicas frequentemente repetidas podem, como é sabido, ganhar ares de verdadeiras e embora não resistam a uma análise detida podem criar preconceitos sociais. Atualmente nós mestiços somos uma etnia que tem sido combatida à base de muita propaganda e idéias falaciosas. Analisar alguns destes discursos e mostrar onde falham e a que servem é sempre positivo. Uma trecho do artigo da antropóloga:

“É uma agressão moral principalmente quando nos acusam de não existirmos enquanto povo, que somos uma ‘invenção’, e estamos usurpando um passado, pois segundo os ‘iluminados’ a realidade que afirmamos ser indígena é uma realidade multicultural, cujo patrimônio sócio cultural é compartilhado por todos os indivíduos aqui residentes, não havendo, portanto, aspectos culturais distintos e específicos do universo indígena, já que, os elementos da cultura material, ditos indígenas, são heranças comuns dos antigos habitantes que se miscigenaram com as etnias que vieram para a região durante a colonização (brancos europeus e negros africanos) e dessa união surgiram, os caboclos, estes não mais trariam no seu cerne cultural a marca endógena e singular de habitante autóctone, ou seja, indígena e uma vez brasileiro comum, não teríamos porque reivindicar direitos consuetudinários, constitucionais diferenciados.”

Os primeiros mestiços do que hoje é o Brasil nasceram há cerca de 500 anos da miscigenação entre nossos ancestrais indígenas (os originais) e nossos ancestrais portugueses, os brancos, à qual depois foram sendo somadas outras origens, destacadamente a africana. Quando nós mestiços nos identificamos como mestiços estamos afirmando que não somos indígenas, que não somos brancos e, ao mesmo tempo, estamos afirmando nosso vínculo histórico com nossas diversas ancestralidades. Não nos afirmamos indígenas primeiro porque não somos e, se o fizéssemos, estaríamos nos alienando, ou seja, sendo “o outro”, deixando de ser o que realmente somos para assumirmos uma identidade alheia, que objetivamente não possuímos.  Sendo mestiços, somos herdeiros da cultura de nossos ancestrais indígenas (os originais) e de nossos ancestrais colonizadores portugueses e, obviamente, da cultura de nossos ancestrais mestiços surgida do sincretismo entre aquelas, inclusive obviamente a cultura cabocla.

Se alguém, porém, sendo miscigenado prefere identificar-se como indígena, ou seja, excluir de sua identificação étnica sua origem não indígena, deve por coerência excluir também de seu legado cultural a herança dos povos não indígenas. Um exemplo tão simples que não é preciso ser antropólogo para entender: faz parte da cultura cabocla, p. ex., a língua portuguesa falada com “sotaque mestiço”. Nós não nos apropriamos do idioma português, herdamos este idioma de nossos ancestrais portugueses, nosso direito sobre este idioma está no mesmo nível do nosso direito sobre os nossos sobrenomes – nossos sobrenomes e a língua portuguesa não pertencem aos nossos ancestrais mais do que pertencem a nós. Imagine-se, porém, se nós do povo mestiço brasileiro passássemos a afirmar que a língua portuguesa pertenceria apenas a nós e não também aos portugueses; imagine um absurdo maior, imagine os portugueses afirmando que a cultura manaó pertenceria a eles e, mais ainda, que pertenceria exclusivamente a eles. A antropóloga defende que a cultura cabocla não só não pertence ao povo mestiço como pertence exclusivamente ao que ela defende ser indígena.

Se alguém se identifica como indígena, então que reclame por coerência somente sua herança indígena.

Leão Alves é secretário geral do Nação Mestiça.

Mestiço não é índio: a tentativa de apropriação e indianização da cultura do povo mestiço (II)

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