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O brasileiro como tipo nacional de homem situado no trópico e, na sua maioria, moreno – Gilberto Freyre

Neste artigo, Gilberto Freyre aborda alguns conceitos de antropologia e de sociologia e outros temas de sua elucidativa exposição do processo de formação do brasileiro como uma identidade distinta e nacional. Sem negar uma situação racial no indivíduo biológico, nem adotar uma postura do tipo “color blind”, destaca o papel da miscigenação ou da mestiçagem que conduzem à consciência da meta-raça, ou seja, à superação da consciência de raça.

Homem, que é, considerado antropológica ou sociològicamente? É um indivíduo biológico que só adquire realidade plena socializado e aculturado em pessoa: pessoa humana. Homem situado é o homem concreto, específico, quanto à sua situação em espaço e em tempo, físicos e sociais. Sua situação racial é parte de sua situação concreta mas tende a ser quase anulada pela crescente ascendência, em algumas sociedades – a brasileira é uma delas – da substituição da consciência de raça, diluída, com a mestiçagem ou a miscigenação, pela consciência de meta-raça, isto é, pela superação do aquem raça pelo além raça. Conceito, aliás – o de meta-raça – brasileiro. O Indivíduo biológico é, no caso do Homem antes de social e culturalmente humanizado por um tipo de socialidade e por um tipo de cultura que façam dêle aquela já aludida Pessoa, um homem apenas em potencial. Pessoa repita-se que é êsse indivíduo biológico socializado em membro – socius – de um grupo e em participante, direto ou indireto, de uma cultura grupal: tribal, regional, nacional, transregional. Ecologia geral é a que, vegetal animal, humana envolva, como ambiente total, inclusive telúrico, um indivíduo biológico que esteja sendo, ou já esteja, socializado e aculturado em pessoa conforme, em grande parte, condições próprias dêsse ambiente total. Por Sociedade deve-se entender, em Antropologia Social e em Sociologia, a população que constitua uma unidade social com organização mais ou menos distinta das de outras sociedades. Por Cultura entenda-se o conjunto de invenções e de desenvolvimentos de aptidões humanas, tanto materiais – técnicas de construção, de abrigo, de caça, de pesca, de agricultura, de transporte, etc., como não-materiais, tais como crenças e idéias. Como conjunto geral, a cultura pan-humana se apresenta sob o aspecto de vários e diferenciados conjuntos culturais específicos, tribais, regionais, nacionais, transnacionais. Exemplos: a cultura maia, a bantu, a guarani, a cultura francesa, a cultura germânica, a eslava, a ocidental, a islâmica. Por complexo de cultura deve-se entender uma cadeia de invenções e de desenvolvimentos, associados funcionalmente, em tôrno de um motivo central ou principal como é, por exemplo, o trigo ou o café ou o vinho, podendo-se também falar de um complexo nacional de cultura desenvolvida, assim inter-relacionada e funcionalmente, em tôrno de motivos nacionais de existência, convivência, coesão e desenvolvimento: o complexo nacional de cultura japonêsa, por exemplo. Tropicalidade refere-se à ecologia tropical sôbre a qual se projete uma cultura por sua vez condicionada, embora não determinada, por essa situação de espaço físico, como é o caso da cultura indiana e de grande parte da cultura brasileira. Tropicalidade adquirida é a que, mais cultural que ecológica, seja adquirida por contágio, de uma cultura ecológica vizinha, como é o caso de vários valôres e usos tropicais que brasileiros de sub-áreas temperadas vem juntando aos seus valôres e usos não-tropicais, numa como solidariedade com os usos e valôres da maioria brasileira, tropicalmente situada e condicionada. Sendo assim, pela Antropologia do Homem situado no Trópico, da tese brasileira, deve ser compreendida aquela antropologia especial, originária do Brasil e consagrada oficialmente por mestres de Ciências do Homem da Sorbonne, que procura estudar o Homem situado no Trópico dentro das inter-relações de Ecologia e de Cultura que lhe estejam porventura dando um perfil antropológico, bio-social, próprio da sua situação. O Homem brasileiro, do qual Álvaro Osório de Almeida já sugeriu, após investigação memorável, que seria diferente no seu metabolismo do Homem das áreas temperadas, pode ser considerado exemplo, no setor fisiológico com repercussões no sócio-cultural de homem moderno, civilizado, predominantemente, mas não exclusivamente, europeu na sua cultura, situado no trópico. Homem, o brasileiro, também caracterizado, nesses setores, por sua crescente, isto é, crescentemente generalizada, morenidade[2] talvez protetora de sua maior adaptação ao ambiente tropical: espécie do que teria sido o urucu para ameríndios de pele menos escura. Tal morenidade, em grupos numerosos de brasileiros – o nordestino, por exemplo, e também os de certas sub-regiões do Centro-Sul – vem resultando, quer do amorenamento pelo sol tropical até de nórdicos, quer da considerável miscegenação em que se vêm unindo os sangues europeus, ameríndio e africano, com resultados além de eugênicos, estéticos. Resultados que já fazem do tipo moreno de mulher ou de homem um tipo atraente para brancos, por um lado, e para negros puros, por outro.

Leia o artigo na íntegra na Biblioteca Virtual Gilberto Freyre .

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