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Bolívia não é país para mestiços – Carlos Malamud

Madri, 2 dezembro 2012
No dia 21 de novembro, a Bolívia realizou o censo da sua população, com importantes consequências demográficas e políticas. Com um critério bastante discutível suas autoridades decidiram eliminar os mestiços da vida cotidiana. Por isso, a pergunta feita sobre a auto percepção étnica foi formulada do seguinte modo: “Como boliviano ou boliviana, pertence a alguma nação ou povo indígena originário camponês ou afro- boliviano?” A resposta era Sim ou Não. Em caso afirmativo deviam escolher  entre uma das 36 nações “indígenas originárias” ou “afro boliviana” presentes na Constituição.
Segundo algumas estimativas, os mestiços constituem entre 60% e  70% da população boliviana. Mas, não é esta a realidade que Evo Morales e os seus querem ver. No entanto, todo o peso do seu programa político se ergueu sobre a premissa do predomínio qualitativo e quantitativo do indígena, que a maioria da população se proclame mestiça vai contra os seus interesses. Se no censo de 2012, a maioria diz pertencer a um povo “indígena originário camponês”, a partilha de cadeiras no parlamento deveria ser adequada a tal resultado. No censo de 2001, 64% da população respondeu que pertencia a uma das seis nações indígenas então definidas.
Frente às críticas atuais destacou a unanimidade da defesa governamental. Evo Morales e seus ministros fizeram questão de similares argumentos: as nações indígenas se definem seguindo critérios étnicos e culturais, mas a mestiçagem é um conceito biológico e racial. O problema é a flagrante contradição na hora de definir segundo critérios étnicos e culturais os indígenas bolivianos e os afro-bolivianos. Como se definem estes últimos? Separam-se os mandingas dos bantúes, por pôr um exemplo, ou se maneja, como se faz, uma só categoria biológica e racial?
Em um exercício de funambulismo, Félix Cárdenas, vice-ministro de Descolonização, afirmou que os que se consideram mestiços na Bolívia não têm território, cultura, religião nem idioma. Como se vê, por não ter, não têm nada. “O tema mestiço… compete aos mestiços, e quem se assume mestiço deveria sustentar por que deveriam existir mestiços,… se comparamos com os Aymaras, há um território próprio mestiço, há uma cultura própria mestiça, há um idioma próprio mestiço, há uma religião própria mestiça? Se há, discutamos”. Depois acrescentou que a construção “colonial” do estado boliviano pretendia ter três estamentos: o branco, o crioulo e o mestiço, “quem assuma esse último nesta gradação racista que se pretendeu construir lá eles”. E como o censo deve servir para elaborar políticas públicas sobre pobreza e desenvolvimento, outras questões, como a religião ou a mestiçagem, não são relevantes e não devem ser incluídos no mesmo.
Estas atuações ocultam ou fazem invisível uma parte importante da população, os não indígenas ou q´aras. Como assinalou Jorge Lazarte: “Isto produzirá um grande oco estatístico no censo mostrando uma imagem distorcida e falseada da composição cultural do país, gerando ao mesmo tempo um (re)sentimento em aproximadamente a metade da população de ter sido maltratada em sua intimidem coletiva. Este sentimento vivido como injurioso e prepotente, exigirá seu reparo em um subsequente censo”.
Viviana Caro, ministra do Planejamento, baseou a exclusão da pergunta sobre os mestiços em um documento da CEPAL (Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe): “Os censos e os povos indígenas na América Latina: uma metodologia regional”. Mas, o citado documento não é tal, senão uma conferência de Susana Schkolnik e Fabiana Del Popolo, pesquisadoras de CEPAL/CELADE, apresentado a um Congresso de abril de 2005.
Que no ministério de Culturas (em plural) exista um vice-ministério de Descolonização é toda uma definição dos caprichos pós-modernos de certos governantes bolivianos. A historiografia americanista há tempos que apresenta a mestiçagem como um fenômeno cultural e não racial. Já falava disso Nicolás Sánchez Albornoz em seu livro sobre a população da América Latina de 1973. Não só isso, somos muitos os que insistimos que um dos pontos positivos da região latino-americana é a mestiçagem. Por isso, abundar no caráter racial e biológico dos mestiços é a melhor prova de que são os atuais governantes bolivianos quem segue vivendo sob o trauma da colonização e são eles os que deveriam ser descolonizados.
Traduzido por Infolatam

Madri, 2 dezembro 2012

No dia 21 de novembro, a Bolívia realizou o censo da sua população, com importantes consequências demográficas e políticas. Com um critério bastante discutível suas autoridades decidiram eliminar os mestiços da vida cotidiana. Por isso, a pergunta feita sobre a auto percepção étnica foi formulada do seguinte modo: “Como boliviano ou boliviana, pertence a alguma nação ou povo indígena originário camponês ou afro- boliviano?” A resposta era Sim ou Não. Em caso afirmativo deviam escolher  entre uma das 36 nações “indígenas originárias” ou “afro boliviana” presentes na Constituição.

Segundo algumas estimativas, os mestiços constituem entre 60% e  70% da população boliviana. Mas, não é esta a realidade que Evo Morales e os seus querem ver. No entanto, todo o peso do seu programa político se ergueu sobre a premissa do predomínio qualitativo e quantitativo do indígena, que a maioria da população se proclame mestiça vai contra os seus interesses. Se no censo de 2012, a maioria diz pertencer a um povo “indígena originário camponês”, a partilha de cadeiras no parlamento deveria ser adequada a tal resultado. No censo de 2001, 64% da população respondeu que pertencia a uma das seis nações indígenas então definidas.

Frente às críticas atuais destacou a unanimidade da defesa governamental. Evo Morales e seus ministros fizeram questão de similares argumentos: as nações indígenas se definem seguindo critérios étnicos e culturais, mas a mestiçagem é um conceito biológico e racial. O problema é a flagrante contradição na hora de definir segundo critérios étnicos e culturais os indígenas bolivianos e os afro-bolivianos. Como se definem estes últimos? Separam-se os mandingas dos bantúes, por pôr um exemplo, ou se maneja, como se faz, uma só categoria biológica e racial?

Em um exercício de funambulismo, Félix Cárdenas, vice-ministro de Descolonização, afirmou que os que se consideram mestiços na Bolívia não têm território, cultura, religião nem idioma. Como se vê, por não ter, não têm nada. “O tema mestiço… compete aos mestiços, e quem se assume mestiço deveria sustentar por que deveriam existir mestiços,… se comparamos com os Aymaras, há um território próprio mestiço, há uma cultura própria mestiça, há um idioma próprio mestiço, há uma religião própria mestiça? Se há, discutamos”. Depois acrescentou que a construção “colonial” do estado boliviano pretendia ter três estamentos: o branco, o crioulo e o mestiço, “quem assuma esse último nesta gradação racista que se pretendeu construir lá eles”. E como o censo deve servir para elaborar políticas públicas sobre pobreza e desenvolvimento, outras questões, como a religião ou a mestiçagem, não são relevantes e não devem ser incluídos no mesmo.

Estas atuações ocultam ou fazem invisível uma parte importante da população, os não indígenas ou q´aras. Como assinalou Jorge Lazarte: “Isto produzirá um grande oco estatístico no censo mostrando uma imagem distorcida e falseada da composição cultural do país, gerando ao mesmo tempo um (re)sentimento em aproximadamente a metade da população de ter sido maltratada em sua intimidem coletiva. Este sentimento vivido como injurioso e prepotente, exigirá seu reparo em um subsequente censo”.

Viviana Caro, ministra do Planejamento, baseou a exclusão da pergunta sobre os mestiços em um documento da CEPAL (Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe): “Os censos e os povos indígenas na América Latina: uma metodologia regional”. Mas, o citado documento não é tal, senão uma conferência de Susana Schkolnik e Fabiana Del Popolo, pesquisadoras de CEPAL/CELADE, apresentado a um Congresso de abril de 2005.

Que no ministério de Culturas (em plural) exista um vice-ministério de Descolonização é toda uma definição dos caprichos pós-modernos de certos governantes bolivianos. A historiografia americanista há tempos que apresenta a mestiçagem como um fenômeno cultural e não racial. Já falava disso Nicolás Sánchez Albornoz em seu livro sobre a população da América Latina de 1973. Não só isso, somos muitos os que insistimos que um dos pontos positivos da região latino-americana é a mestiçagem. Por isso, abundar no caráter racial e biológico dos mestiços é a melhor prova de que são os atuais governantes bolivianos quem segue vivendo sob o trauma da colonização e são eles os que deveriam ser descolonizados.

Traduzido por Infolatam, 03/12/2012.

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