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Indigenismo, poder branco e mestiçofobia – Leão Alves

Os imperialismos não se firmam somente pela imposição do poder pela força, mas também por meio de discursos visando justificar sua dominação. Para o Império Romano, ele estaria levando a civilização aos bárbaros; depois que os bárbaros o cristianizaram, o Império Romano acrescentou a justificativa de estar levando a fé cristã aos pagãos. Os tempos passam e vão mudando as justificativas. Nestes tempos de secularismo, o ambientalismo, o humanitarismo e o indigenismo tomaram lugares de destaque.

Uma espécie de Liga das Raças foi organizada, bancada econômica e intelectualmente por ONGs (?) sediadas nos EUA e em antigas metrópoles europeias, com a finalidade de remodelar racialmente a América Latina. Os mestiços tornaram-se o principal alvo. A antropologia que no passado serviu ao discurso da supremacia branca sobre as demais raças agora serve, entre outras, ao discurso do supremacismo indígena e negro sobre os mestiços e a mestiçagem –  com argumentações e propostas na mesma linha das do primeiro-ministro sul-africano Hendrik Verwoerd e das de outros ideólogos e financiadores do apartheid – e que indicam como o racismo pode renovar suas estratégias políticas.

Um discurso recorrente diz que estaria ocorrendo um empoderamento dos indígenas e de outros grupos. Será? Quem banca esse suposto empoderamento? De onde vêm o dinheiro e os intelectuais que sustentam esta pregação indigenista?

Por séculos os jesuítas, p. ex., dominaram política, econômica e ideologicamente indígenas em diversos países. Tiveram dificuldades com filhos destes, os mestiços. Tutelar mestiços não era tão rentável e tinha uma dificuldade a mais: os mestiços conheciam muito bem a cultura de seus parentes europeus; não precisariam, p. ex., de padres para intermediar um diálogo com Lisboa.

Os mestiços eram também um problema para a influência deles sobre os indígenas. Os jesuítas tentaram excluir estudantes pardos das escolas, voltando atrás por ordem do rei de Portugal e pela ameaça de terem verbas cortadas (desde aquela época estes grupos colonialistas que desejam cuidar de etnias sentem-se incomodados com a interferência de poder central, exceto para financiamento).

Pouco a pouco as organizações religiosas foram perdendo espaço para o próprio Estado e para organizações não religiosas. A mestiçagem, porém,  ainda é vista como um problema no colonialismo indigenista atual e de forma mais agressiva. Este indigenismo tem empenhado-se muito na eliminação étnica do mestiço e para isso as academias têm grande importância. Há financiamentos para formação de mestres, de doutores e para “pesquisas”. É sugestivo que uma das maiores ONGs (?) financiadoras leva o nome de um poderoso industrial condecorado pela Alemanha nazista.

O carro-chefe do euro-indigenismo isolacionista são as demarcações de “territórios indígenas”. É impressionante como o discurso do apartheid ganhou ares de nobreza e de “politicamente correto” no Brasil. Racismo foi pintado de “valorização da diversidade”. Com a mesma disposição com que aparentavam praguejar o regime segregacionista de Hendrik Verwoerd, o petismo e ideologias assemelhadas defenderam antes, durante e depois da última Constituinte a separação territorial de indígenas e o isolamento destes de mestiços, de pretos, de brancos brasileiros e de outros não-índios (exceto, é claro, os que competem pela administração dos assuntos indígenas). Combater a mestiçagem, nunca é de menos lembrar, é o centro de todo racismo.

A questão, assim, vai muito além da redução a um conflito entre fazendeiros e indígenas, como aparece em regra nas mídias. O conflito real ocorre na atuação de grupos da elite europeia e dos EUA, “homens brancos” de verdade, e seus representantes ideológicos no Brasil contra os direitos originários, territoriais e culturais do povo mestiço, que vem sendo marginalizado literalmente pela ação daqueles. As grandes vítimas desse processo de institucionalização do apartheid no Brasil são os pobres, em sua absoluta maioria mestiços que estão sendo vítimas de limpeza étnica e que em nada são menos nativos do que os indígenas atuais, sendo os mestiços os descendentes dos indígenas e mestiços escravizados no passado.

Para acabar com o povo mestiço, dizem que somos negros nas políticas de cotas raciais, e quando desejam nos expulsar para ficarem com as terras que nossos ancestrais nativos nos deixaram, dizem que somos “homens brancos”. O que os racistas não querem é que nós mestiços digamos, nós mesmos, o que nós somos.

Leão Alves é secretário geral do Nação Mestiça.

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Posted in Apartheid no Brasil, Artigos, Leão Alves, Mestiçofobia | Desmestiçagem, Multiculturalismo, Português, Verwoerdismo | Indigenismo.

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