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Um comentário sobre proibição de mestiços numa aldeia indígena

O texto abaixo é de uma nota de rodapé do artigo científico “Fé na cultura”: índios, missionários e códigos de mediação”, de Aramis Luis Silva e Melvina Afra Mendes de Araújo
Uma das medidas que Paulo aventara, segundo consta em entrevista de fevereiro de 2005, era a proibição da instalação de mestiços na nova “aldeia cultural”. Enquanto a mistura de culturas e grupos étnicos é a ideologia forte para a alocação de Meri Ore Eda em um Brasil multicultural, conforme defendido em projeto entregue ao Ministério da Cultura, a pureza no interior da aldeia é uma condição para a organização dessa pedra do mosaico brasileiro. “Eu vou ser franco. Não pode [ter mestiços]. Ele pode estar aí trabalhando, ajudando, mas lá dentro não vai poder. O dia que surgir um filho de branco ele pode até ser tirado da barriga. Pode até ser morto.”Segundo Paulo, poderia nascer um monstro. “Não digo assim um bicho de quatro pernas. Mas ele vai ser problema lá dentro. Ele vai ser um caos na comunidade. Ele vai infringir as ordens do chefe” (fala que nos remete diretamente às práticas de sufocamento dos recém-nascidos identificados pelos Baire como sinais de desgraça para aldeia). Precavendo-se da leitura de sua determinada posição, Paulo, para comprovar que não estaria “sendo racista”, lembra que o segundo tesoureiro da associação que preside tem ascendência negra (da linhagem de Ana Preta, senhora que desde menina mora com os Bororo em Meruri), evidenciando a fragmentação dos modos de conceber as relações sociais e a fragilidade em tomarmos um mundo merurense clivado entre grupos incomensuráveis e homogêneos. Interessantíssimo perceber em um única fala o entrecruzamento de matrizes discursivas. Uma escuta etnológica estaria atenta principalmente para o imperativo da matrilinhagem bororo às concepções da liderança. Todavia, Paulo transita ora entre o que ele lê como tradição (lugar da matrilinhagem para definir autenticidade bororo) ora no discurso racializante, antevendo como poderá ser interpretado. Quando Paulo faz referências às futuras e virtuais negociações com os Xavante, que viriam a acontecer por conta das freqüentes invasões de suas terras, é enfático: “Eu tenho que ir junto para segurar essas pontas. Porque eles (Xavante) não vão confiar porque o cacique é um mestiço (Lourenço Filho Pirojibo, descendente de Ana Preta). O chefe de posto é um mestiço (Valdomiro Merireu, filho de Olga Bororo e de pai branco, morou em fazendas e em Goiâna, onde terminou a oitava série). Quer dizer. Aqui quem manda é branco”. Colocando Gilberto Freyre de ponta-cabeça, a mestiçagem torna-se símbolo de relações culturais opressivas. “O problema é que aqui a terra é indígena. De índio. Quer dizer, [a presença do mestiço significa que] alguma coisa aconteceu. Por quê? A mulher gosta do branco. A mulher… a comunidade deixou branco entrar. Ou ela foi vadiar na cidade, na fazenda. E ai surge o mestiço. Quer dizer, a desordem. Nasceu um filho desordeiro, nasceu um filho errado.”
Artigo (Horiz. antropol. vol.13 no.27 Porto Alegre Jan./June 2007) na íntegra em Scielo.
Os vídeos e os textos postados assinados por seus autores e os noticiosos e de outros sites lincados são de inteira responsabilidade dos mesmos não representando no todo ou em parte posicionamentos do Nação Mestiça. Divulgue este site.

O texto abaixo é de uma nota de rodapé do artigo científico “‘Fé na cultura’: índios, missionários e códigos de mediação”, de Aramis Luis Silva e Melvina Afra Mendes de Araújo

Uma das medidas que Paulo aventara, segundo consta em entrevista de fevereiro de 2005, era a proibição da instalação de mestiços na nova “aldeia cultural”. Enquanto a mistura de culturas e grupos étnicos é a ideologia forte para a alocação de Meri Ore Eda em um Brasil multicultural, conforme defendido em projeto entregue ao Ministério da Cultura, a pureza no interior da aldeia é uma condição para a organização dessa pedra do mosaico brasileiro. “Eu vou ser franco. Não pode [ter mestiços]. Ele pode estar aí trabalhando, ajudando, mas lá dentro não vai poder. O dia que surgir um filho de branco ele pode até ser tirado da barriga. Pode até ser morto.”Segundo Paulo, poderia nascer um monstro. “Não digo assim um bicho de quatro pernas. Mas ele vai ser problema lá dentro. Ele vai ser um caos na comunidade. Ele vai infringir as ordens do chefe” (fala que nos remete diretamente às práticas de sufocamento dos recém-nascidos identificados pelos Baire como sinais de desgraça para aldeia). Precavendo-se da leitura de sua determinada posição, Paulo, para comprovar que não estaria “sendo racista”, lembra que o segundo tesoureiro da associação que preside tem ascendência negra (da linhagem de Ana Preta, senhora que desde menina mora com os Bororo em Meruri), evidenciando a fragmentação dos modos de conceber as relações sociais e a fragilidade em tomarmos um mundo merurense clivado entre grupos incomensuráveis e homogêneos. Interessantíssimo perceber em um única fala o entrecruzamento de matrizes discursivas. Uma escuta etnológica estaria atenta principalmente para o imperativo da matrilinhagem bororo às concepções da liderança. Todavia, Paulo transita ora entre o que ele lê como tradição (lugar da matrilinhagem para definir autenticidade bororo) ora no discurso racializante, antevendo como poderá ser interpretado. Quando Paulo faz referências às futuras e virtuais negociações com os Xavante, que viriam a acontecer por conta das freqüentes invasões de suas terras, é enfático: “Eu tenho que ir junto para segurar essas pontas. Porque eles (Xavante) não vão confiar porque o cacique é um mestiço (Lourenço Filho Pirojibo, descendente de Ana Preta). O chefe de posto é um mestiço (Valdomiro Merireu, filho de Olga Bororo e de pai branco, morou em fazendas e em Goiâna, onde terminou a oitava série). Quer dizer. Aqui quem manda é branco”. Colocando Gilberto Freyre de ponta-cabeça, a mestiçagem torna-se símbolo de relações culturais opressivas. “O problema é que aqui a terra é indígena. De índio. Quer dizer, [a presença do mestiço significa que] alguma coisa aconteceu. Por quê? A mulher gosta do branco. A mulher… a comunidade deixou branco entrar. Ou ela foi vadiar na cidade, na fazenda. E ai surge o mestiço. Quer dizer, a desordem. Nasceu um filho desordeiro, nasceu um filho errado.”

Artigo (Horiz. antropol. vol.13 no.27 Porto Alegre Jan./June 2007) na íntegra em Scielo.

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