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Negritude, mística sem lugar no Brasil

Nesta esclarecedora entrevista, Gilberto Freyre comenta sobre a mestiçagem como um processo físico e cultural que formou uma brasileiríssima consciência de meta-raça e que vem ocorrendo mundialmente.

Entrevista de GILBERTO FREYRE ao “Estado de São Paulo”

A mística da “negritude” é válida para unir uma só bandeira etno-cultural os negros da África atual, tão divididos pelas suas diferentes atitudes quanto ao que seja “raça” ou cultura tribal de que a maior das partes dêles provém; mais não serve como artigo de exportação. É a opinião de Gilberto Freyre, para quem a “negritude”, em nações não-africanas, implicaria em procurar filiar negros com elas identificados, como no caso do Brasil, a uma tentativa de imperialismo etnico-cultural africano. O sociólogo e historiador, em entrevista a “O Estado”, mostra que não há, e nunca houve, no Brasil, ambiente favorável a apegos absolutos e etnias, a “raças” ou a culturas fechadas.

Que nos pode dizer a propósito de recente pronunciamento de um intelectual brasileiro sôbre “deturpações” de estudos antropológicos, sociológicos e históricos no nosso país, que se estariam verificando com prejuízo do negro?

Que é, no mínimo, exagerado. O Brasil talvez seja a nação multirracial e multicultural nas suas origens, onde tais estudos se vêm realizando, do ponto de vista complexamente nacional, com maior amplitude de perspectivas, isto é, com maior inclusão dos vários elementos etnoculturais que vêm constituindo o todo brasileiro e maior tendência à valorização de cada um. Não direi haja perfeição na perspectiva. Mas não lhe faltam amplitude e compreensividade. Isto, aliás, corresponde ao fato de que, sendo uma nação, repita-se, multirracial e multicultural em suas origens, o Brasil não vem sofrendo, nem sofre hoje, nesses setores, das tensões agudas, das por vêzes quase guerras civis que ainda agora, afligem não só alguns Estados-nações da África negra e do Oriente, como na Europa, a Bélgica, para não falarmos dos Estados Unidos e do próprio Canadá. Ainda não se faz, talvez, inteira justiça sociológica e histórica ao negro africano como quase colonizador, ao lado do íbero e, particularmente, do português, êste construtor das bases nacionais do Brasil, antes de, entre nós, ter vigorado, sociològicamente, com bandeirantes e senhores de engenho, um processo de autocolonização, mostrando como um colonizador um pré-brasileiro já mestiço. Mas a verdade é que a presença do negro, como a presença do ameríndio, na nossa população, na nossa convivência e na nossa cultura, vem merecendo atenções intelectuais idôneas desde o século XVII. Desde o Padre Antônio Vieira, já, a seu modo, o negrófilo. E ao grande José Bonifácio não faltou a exata compreensão da importância dêsses elementos etnoculturais o ameríndio e o negro na formação nacional do Brasil como nação e cultura em parte extra-européias.

 A que atribui a veemência com que alguns intelectuais brasileiros e estrangeiros estão atualmente abordando o assunto e pretendendo apresentar o Brasil como “matador de índios” o “detrator de negros”?

Há motivos evidentemente extracientíficos e que nada têm que ver com justiça sociológica ou justiça histórica. É curioso que alguns dêsses “veementes”, sendo ianquéfobos, estão empenhados em transferir para o Brasil uns “brack studies”, ou “estudos negros”, que são ianquises. Como ianquises, podem ter alguma base, para a sua implantação em caráter de oposição “estudos brancos”, nos Estados Unidos. No Brasil, com êsse caráter de oposição ou de ódio e de furor opologético, seria descabidos. Não se pode negara diferença entre os dois países como, aliás, entre o Brasil e a União Indiana, o Brasil e o Paquistão, o Brasil e o Canadá, o Brasil e a própria União Soviética, neste particular. Aqui, mais que em outra área ocupada por grande nação, a tendência vem sendo imperfeita porém crescente para a síntese cultural através da interpretação de culturas, quer básicas, quer contribuintes ou ancilares – e para a superação de filiações absolutas e etnias ou a “raças” fechadas, por uma já brasileiríssima consciência de meta-raça ou seja uma além-raça que supera aquelas extrema filiações a etnias de origem, Filiações que competissem com a identificação com o Brasil. Não se desdenha, com essa atitude, das origens étnicas e dos precedentes culturais que, além dos ibéricos ou dos lusitanos, vêm constituindo, no Brasil, uma população e uma cultura já distintamente nacionais. O que não tem havido aqui, e não há agora, é ambiente favorável aquêles apegos absolutos a etnias ou a “raças” ou a culturas fechadas como certo germanismo – inventor da técnica dos “sudetos” ou defensor de exagerados direitos de minorias dentro de sociedades ou culturas nacionais, minorias com possibilidades, a base dêsses supostos direitos, de se tornarem antinacionais – e falhou. No Brasil não há clima para nenhuma espécie de “sudetos” que se pretendam construir aqui em ilhas etno-culturais de anti-Brasis, quer os “sudetos” sejam arianos e adeptos de um arianismo fechado, quer amarelos orientais que aqui pretendessem se agrupar em tôrno de uma mística de amarelidade, ou negros africanos que pretendessem introduzir no Brasil êsse outro sudetismo que tivesse por bandeira o mito da negritude. Mito oposto à solução brasileira que a tendência para uma crescente morenidade exprime e até simboliza.

Os estudos sôbre a presença negra no Brasil têm contribuído para valorizar essa presença?

Vários dêles, sim: a do negro e a do negróide. Lembrarei os estudos de Sylvio Romero, João Ribeiro, J.B. Lacerda, José Veríssimo, Roquette Pinto, Fróes da Fonseca, Artur Ramos, Renato Mendonça, Rodrigues de Carvalho, Dante de Laytano e, ainda, os mais recentes, de René Ribeiro, Gonçalves Fernandes, Tales de Azevedo, Valdemar Valente, Renato Campos, Edison Carneiro, vários outros. É certo que, africologista notável pela riqueza de material que reuniu, como antropólogo, Nina Rodrigues abordou o assunto de um ponto de vista lamentàvelmente arianista, isto é, considerando a etnia negra “inferior”. Certo que essa foi também a atitude, como sociólogo, de Oliveira Viana. Mas desde Antônio Vieira, no século XVII, reforçado, no fim do século XVIII e no comêço do XX, por José Bonifácio, que, dos generalistas e especialistas que se vêm ocupando no Brasil da presença negra na nossa população e na nossa cultura, os mais idôneos têm-se inclinado a uma visão mais brasileiramente sociocêntrica que etnocêntrica do assunto, visão, critério de estudo e método de pesquisa. Entretanto, caberia ao I Congresso de Estudos Afro-Brasileiros, reunido pioneiramente no Recife em 1934, iniciar de modo incisivo nova fase não só nesses estudos como, transbordando dos estudos, na atitude com relação à presença negra na população e na cultura brasileira. Lembro-me de como se espantou, então, ilustre intelectual brasieliro de formação requintadamente européia ao lar, em estudo apresentado ao Congresso do Recife, que os negros da África tinham trazido para o Brasil “culturas”. Culturas negras! Parecia-lhe um absurdo. Enquanto outro intelectual, êsse “modernista” filiado ao grupo da “Semana da Arte Moderna”, mas evidentemente mais discípulo de Mário de Andrade, já levara ao ridículo a valorização de coisas de culinária – com uma forte presença africana nelas – promovida por congresso anterior, já simpático ao reunido também no Recife e ao desenvolvimento de valores africanos na vida e na cultura do nosso País: o Congresso Regionalista de 1926.

Foram científicos êses dois congressos?

Sim. Marcados por um evidente espírito de humanismo científico. O de Estudos Afro-Brasileiros mereceu o apoio do então maior antropólogo: Franz Boas. Teve colaborações valiosíssimas, inclusive de babalorixás e de calorixás. Seus anais estão publicados em dois volumes. Assinalam um grande momento na história cultural do Brasil, fato salientado na época por mestre Roquette Pinto. Surgiu com êsse Congresso, de modo nítido, uma nova imagem de negro, capaz de começar a acabar de vez com a vergonha de certos brasileiros negros (brasileiros adjetivamente negros, pois, ao contrário dos Estados Unidos e do seu “negro americano”, antagônico ao “americano branco:, o Brasil não tem um “negro brasileiro) de descenderem de negros africanos. Um país em que se realizou tal Congresso não precisa, evidentemente, que missionário de um nôvo feitio venham da Europa ou da África ensinar os seus intelectuais, historiadores, antropólogos, sociólogos, artistas, a não deturpar a figura ou a história do negro. É certo na época houve quem chegasse a denunciar o mesmo Congresso a Polícia Política como subversivo. Por incrível que hoje pareça, um dos então arianistas e amigos da “ordem” a quem o Congresso do Recife mais inquietou foi o eminente crítico literário e escritor público Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde). Intelectual ilustre que hoje nada tem do quase europeu fechado a não-europeus que foi naquela época.

Que nos diz, especìficamente, da “negritude”?

Pode ser uma mística válida para unir sob uma só bandeira etno-cultural os negros da África atual, tão divididos pelas suas diferentes atitudes quanto ao que seja a “raça” ou a cultura tribal, de que a maior parte dêle provém. Mas não me parece que deva ser artigo de exportação, pois como artigo de exportação implicaria, repito em procurar-se fazer de pessoas de pigmento escuro, pertencentes a nações não-africanas e com elas identificadas, filiados de uma tentativa de imperialismo étnico-cultural africano. “Porque – perguntava-me certa vez na Europa um intelectual negro africano – poetas brasileiros de origens negro-africana (entre os quais, por sua conta, incluía Jorge de Lima), na se revelam negros e africanos na sua poesia”? respondi-lhe que por um fato muito simples: por serem brasileiros. Como brasileiros teriam até o direito de preferir, nos seus versos, falar de brumas e de névoas – como o brasileiro, preto retinto e poeta admirável Cruz e Sousa – a exaltar ardores de sol e brilho de luz. A condição de brasileiro dá a um poeta ou a um escritor ou artista tôdas as liberdades quanto as preferências nesse e noutros particulares. Inclusive a de preferirem casar com francesas louras ou alemãs ruivas.Mais: aos intelectuais brasileiros de agora, anima, cada dia mais, a coragem de desenvolver objetivos e métodos, nos nosso estudos sociais, que correspondem. A nossa ecologia, em grande parte tropical, ou às nossas situações e aos nossos desígnios e tendências extra-europeus e meta-raciais. Marxismo, freudismos, weberismos, toynbismos, estruturalismos e existencialismos são “ismos” europeus ou euro-africanos dos quais podemos extrair valores – como também da arquitetura de um Le Corbusier – ou informes – como da psicologia de um Jung – que sirvam de hipóteses e de métodos de análise e de interpretação das nossas próprias situações. Mas reformulando essas hipóteses e reformando êsses métodos, de modo a que correspondam às nossas situações e necessidades, aos nossos desígnios e às nossas constantes nacionais. Pode-se ir além de admitir que me vários casos devemos inventar nosso métodos sem o receio de, ao desenvolver nossas interpretações, ofendermos ortodoxias ideológicas ou metodologias de europeus ou dos norte-americanos. Já não inventamos com Santos Dumont um tipo pioneiro de avião? Com os paulistas de Taubaté, a técnica econômica da valorização? Com os modernos arquitetos do Rio, um “quebra-sol”? Com o Professor Roberto Campos, a “correção monetária”? Não se tornaram universais êsses inventos e essas técnicas? Não reconheceu já, oficialmente, a Sorbonne a validade científica da idéia brasileira de “antropologia do Homem situado no trópico”? Não estão vários europeus simpáticos à validade da idéias, também brasileira, de uma “meta-raça”? Saliente-se, quanto a métodos antropo-sociológicos relacionados com o estudo do negro africano na população e na cultura brasileiras, que algumas antecipações brasileiras podem ser assinaladas. Por exemplo: sabe-se que em todo o continente americano são escassos os documentos que indiquem origens e identidades específicas – regionais e tribais – dos negros importados da África pelas Américas como escravos. Entretanto, um antropólogo-sociólogo brasileiro já demonstrou que, com relação ao fim do século XVIII e comêço do XIX, os anúncios de escravos fugidos e de escravos à venda, nos jornais da época, constituem uma fonte de informações valiosíssimas a êsse respeito. Também o Brasil parte uma iniciativa – coincidente com outra, semelhante, do africonologista Herskovits – de se identificarem essas diferentes procedências pelas sobrevivências de formas significativamente diversas, do uso de panos de proteção de cabeça, de adôrno ou resguardo do dorso, usados por mulheres em áreas de considerável presença africana naqueles e em séculos anteriores. Outra fonte de informação a respeito: livros de registro de negros importados diretamente da África por negreiros, cuja atividade, nesse particular, era extra-oficial. Um dêles foi Bento José da Costa, de quem restam êsses registros. Outro, o comendador Breves. Além do que, as hoje muito em voga colheitas, nos chamados “black studies” nos Estados Unidos, de “história oral, de tradições folclóricas, de autobiografias orais de analfabetos, de outros materiais e valores também oralmente transmissíveis, como receitas de alimentos – algumas publicadas nos Anais do 1º Congresso de Estudos Afro-Brasileiros reunido no Recife em 1934 – há anos que são um método antropo-sociológico oral empregado pelos antropólogos e sociólogos brasileiros em seus estudos do negro brasileiro pré-letrado. De modo que certas informações sôbre novos métodos nesse setor, que o erudito prof. Jan Vasina apresenta em recentíssimo trabalho sôbre “Oral Traditions as History in Africa”, não são novidades para o Brasil. Terá sido êste um dos motivos para um antropólogo-sociólogo brasileiro ter sido incluído entre os membros do Comitê Central constituído pela UNESCO, em Paris, para orientar a elaboração de uma história geral da África que inclua tanto transbordamento de africanos e de suas culturas, noutras áreas do mundo, como presenças, como a brasileira, nas Áfricas e nas suas culturas. Inclusive através de ex-escravos que regressaram no século XIX à África como “brasileiros”. Alguns dêles vêm sendo estudados por mim e, de modo admirável, pelo meu amigo Pierre Verger, francês tão ligado ao Brasil.

Que outros aspectos dos atuais estudos do brasileiro como tipo nacional de homem podem ser destacados em relação com estudos do homem e das culturas da África?

Tipos físicos ou antropológicos e culturais do continente africano interessam-nos, aos brasileiros, de modo especialíssimo. Os estudos a seu respeito só podem nos atrair a atenção. Depois da Europa ibérica, foi a África negra que mais contribuiu com seus sangues e suas culturas para a população e a cultura nacionalmente brasileiras em desenvolvimento desde o século XVIII, com alguma projeção sôbre a mesma África negra. Compreende-se que a UNESCO tenha incluído um brasileiro no grupo mundial de intelectuais incumbidos da elaboração de uma história geral, social, das Áfricas. Mas assim como a um brasileiro repugnaria uma “hispanidad” como a que se tentou, por algum tempo, projetar sôbre a América ibérica, ou mesmo uma “lusitanidade” que pretendesse fazer do Brasil um anexo de uma pura cultura lusitana, e assim como soubemos repudiar certa tentativa nazista de fazer uma cultura nazi-germânica rival da ibéria-negro-ameríndia, que constitui o fundamento da cultura nacionalmente brasileira, também nos repugna hoje aquela “negritude” que pretendia fazer do brasileiro negro – adjetivamente negro – um negro substantivamente negro e adjetivamente brasileiro, semelhante ao “negro americano”(dos Estados Unidos) ou ao “negro sul-americano”(isolado na União Sul-Africana, pelo “Aparthed” da convivência nacional com os brancos).

Atualmente, qual a perspectiva geral, nas várias partes do mundo, da mestiçagem?

Há, no mundo moderno, em geral, crescente desenvolvimento de tipos físicos mestiços de homem. Grande parte da população humana está a tornar-se mestiça. Êsse desenvolvimento e o número já grande de culturas também mestiças tornam cada dia mais arcaica a divisão simplista do mundo, étnica, cultural ou política, entre brancos e pretos ou amarelos, ou pardos ou vermelhos como tipos “puros” do homem ou de etnia.

São mestiços alguns campeões dos próprios movimentos racistas a favor de uma “raça negra pura” ou de uma cultura negra africana também pura. Mestiço são também alguns dos novos líderes mais hábeis de certas nações novas de gente de côr. Até pode sugerir que talvez os mestiços estejam a tornar-se a fôrça decisiva, política e culturalmente decisiva, em grande parte do mundo; e que o gôsto estético humano, no que se refere ao corpo humano, sobretudo à beleza ou à graça feminina, está a sofrer influência da crescente miscigenação não só numa grande área continental como é o Brasil, com seus quase cem milhões de habitantes, mas também noutras áreas. Está produzindo essa crescente miscigenação novas combinações de forma e de côr, cujos efeitos eugênicos, portanto negativos, já ninguém frisa, como outrora, tão mais evidentes são seus efeitos eugênicos e estéticos. O que está se tornando mais ostensivo nessas combinações é o conjunto dêsses efeitos, por vêzes impressionantes, quer eugênicos, quer estéticos. Efeitos positivos que abrem novas perspectivas ao futuro humano. Sou daqueles que pensam que o aspecto estético da miscigenação é de considerável importância sócio-cultural. Pode contribuir em muito para uma nova valorização do homem miscigenado como ser eugênico e estético; e, através de sua eugenia e de sua estética, para sua ascensão social. Para sua integração. Mais: para uma integração pan-humana meta-racial.

O professor Everett Hughes destacou há pouco o fato de que a maior parte dos americanos nos Estados Unidos só aparentemente continuam a aceitar o lugar-comum da repulsa sexual de brancas e negros, segundo o qual a mulher branca nunca seria atraída sexualmente por pretos. Essa atração se verifica tanto nos Estados Unidos como no país por excelência de segregação: a União Sul-Africana. Num e noutro, a atração branco-preto tende a vencer as últimas tentativas segregacionistas. Num e noutro, começa a avultar uma população dinâmicamente morena. O Brasil vem de há muito se antecipando a essa dinâmica: a da mestiçagem, que vem resultando, entre nós, numa vasta população morena, estèticamente atraente, intelectualmente capaz, socialmente ajustada. Dentro dessa harmoniosa dinâmica sócio-cultural não há, no nosso País, vez para negritudes ou branquitudes. O que aqui cada vez mais se afirma é uma nação de gente em grande parte morena e uma cultura que é síntese de várias culturas contribuintes e não exclusivista.

Fonte: FREYRE, Gilberto. Negritude, mística sem lugar no Brasil. Boletim do Conselho Federal de Cultura. Rio de Janeiro, a. 1, n. 2, p. 16-23, abr./jun. 1971.

De Biblioteca Virtual Gilberto Freyre

Deputado quer criar territórios culturais brancos

ECR-3: a divisão dos brancos – Leão Alves

Posted in Artigos, Português.

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14 Responses

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  1. Leão says

    E quanto aos “territórios brancos”?

    Você afirmou que o idioma português foi imposto por invasores. Os africanos não são também nativos – nós mestiços somos.

    Sobre a palavra mulato, o próprio texto que você postou, que prefere uma das hipóteses, mostra que a origem da palavra é incerta e não há consenso: “Há praticamente um consenso sobre as origens do mulato” (ou seja, não há consenso), “Mas a maioria dos estudiosos duvida disso” (ou seja, não todos).

    Há um estudo sobre as hipóteses em Africans and Native Americans, de Jack D. Forbes.

    Quanto à palavra negro não há dúvida quanto à sua ligação com a idéia de ‘escravo’. A palavra negro já não tem esta carga depreciativa atualmente.

    Somos mulatos, continuaremos identificando-nos como tal e isto é direito nosso. Ninguém está desejando que você também identifique-se como mulata, e muito menos fazendo leis para impor isto a você como certos movimentos que criam estatuto para impor aos pardos a identidade negra. Os mulatos, porém, são a maioria dos afrodescendentes, gostem ou não certos movimentos negros.

    O seu comentário sobre os imigrantes afrodescendentes de origem latino-americana nos EUA, além de incorreto, mais uma vez mostra que você não respeita o direito das pessoas identificarem-se como queiram.

    Os Coloureds da África do Sul, que eram discriminados pelos governos brancos e agora pelos governos pretos? Eles também são negros para você?

    http://nacaomestica.org/blog4/?p=3019

    Fico imaginando como seriam vistos na África muitos dos que no Brasil vêem-se como negros e desejam impor a negritude aos mestiços.

    Você renega sua origem nativa quando se identifica como negra e quando defende que negro e afro-brasileiro são sinônimos: “A identidade afro-brasileira é a identidade dos NEGROS brasileiros, portanto, quem é afro-brasileiro, é negro…”.

    Quando você defende que mulatos não se identiquem como mulatos ou mestiços, você está defendendo que abramos mão de nossa ancestralidade européia.

    Nós não temos o objetivo de influenciar afro-brasileiros a abandonar identidade étnico-racial de afrodescendentes, até porque negritude e afrodescendência são distintas: mulatos e cafuzos são afrodescendentes e afro-brasileiros e não são negros. Podem até se alienarem de sua identidade e passado (direito de qualquer pessoa), mas sua história continuará a mesma.

    Influenciar pessoas ocorre voluntariamente ou não. Você é a favor de censura?

    Este é um site mestiço, da comunidade mestiça. Se algum mulato que se identifique como negro ler estas palavras de Gilberto Freyre e decidir não se alienar de sua identidade e passar a se identificar como mestiço é direito dele e será bem-vindo à comunidade.

  2. Denise says

    Volto a afirmar que vivemos em um país onde o idioma que foi imposto pelos invasores europeus é o português. E é esse idioma que se deve usar pra se fazer entender. Se eu usar palavras em yorubá por exemplo, pouquíssimas pessoas me entenderão.

    Em relação à palavra ‘mulato’, volto a afirmar que não há qualquer dúvida sobre sua origem. Essa palavra originou-se aqui no continente americano durante a época do escravismo. Leia o trecho a seguir, retirado do site http://www.cbc.ca/news/indepth/words/mulatto.html, que eu traduzi para o português.
    __________________

    MULATO E MULA

    Há praticamente um consenso sobre as origens do mulato. A maioria dos lexicógrafos acredita que ela vem das palavras em espanhol e português para a mula, que por sua vez, baseiam-se no termo latino para o mesmo animal, mulus. A palavra foi usada pela primeira vez cerca de 400 anos atrás para rotular as crianças que tinham uma mãe negra (Africana) e um pai branco (Europeu). Uma mula, claro, é fruto de um jumento e uma égua.

    Algumas pessoas pensam que mulato, na verdade vem da palavra árabe muwallad (“uma pessoa de raça mista”), e que pode estar relacionada com walada (“dar à luz”). Mas a maioria dos estudiosos duvida disso. Eles ressaltam que mulato é certamente ligado ao papel central da Espanha no comércio atlântico de escravos, e ao desejo de marcar os escravos de acordo com alguma quantidade de sangue branco que corresse em suas veias. Não é de surpreender que indivíduos que se sentiam superiores o suficiente para comprar e vender os outros seres humanos fossem os responsáveis por essa calúnia.
    __________________

    Este mesmo esclarecimento sobre a palavra ‘mulato’ pode ser encontrado em dezenas de outros sites… O site cujo link está acima é canadense, e claro que está todo em inglês. Mas quem quiser conferir pessoalmente, pode entrar, copiar todo o conteúdo, colar no Google Tradutor, e traduzir do inglês para o português.

    Outra coisa: Nos Estados Unidos, os únicos indivíduos que se identificam como ‘mulatos’ são alguns imigrantes negros de países latino-americanos, que são conhecidos lá como ‘Black hispanic’. Essas pessoas, por terem saído de países de terceiro mundo, onde o nível cultural é precário (mesmo caso do Brasil) não sabem o verdadeiro significado da palavra ‘mulato’, que compara ser humano com animal. E tem feito um desfavor à população americana levando essa palavra de volta aos EUA, depois de décadas que ela foi retirada do vocabulário dos americanos.

    Em relação ao meu comentário, não retiro nenhuma palavra. É isso mesmo: “…é uma idiotice muito grande orgulhar-se de algum grau de ancestralidade européia que só está em nós porque nossas ancestrais tiveram que servir de objeto sexual pra satisfazer a um bando de escravizadores vagabundos…” É isso aí mesmo!

    Mais uma coisa: Já disse que não renego a qualquer porcentagem de sangue ameríndio que talvez eu tenha. E não estou pedindo pra que vocês abram mão de qualquer ancestralidade européia ou ameríndia. Vocês é que tem tentado influenciar os afro-brasileiros a abandonar sua identidade étnico-racial de afrodescendentes… Leia o título do texto: Negritude mística sem lugar no Brasil.

  3. Leão says

    – O problema não está em usar, mas em desejar impor o significado. Imagine se eu, como brasileiro sem nenhuma ancestralidade chinesa (pelo que eu saiba) chegasse à China e fosse desejar ditar aos chineses o significado das palavras do idioma deles. Alguém pode ir a um curso de inglês e aprender o idioma até melhor do que um londrino, mas isto não lhe dá direitos históricos sobre o idioma que mesmo um inglês recém-nascido descendente dos criadores do idioma (que sequer o aprendeu ainda) já possui. Quem repudia o sangue branco português que repudie também qualquer direito sobre a cultura dos portugueses colonizadores, ou estará sendo incoerente.

    – Um destaque sobre as palavras negro e mulato: a palavra ‘negro’ inquestionavelmente está associada à idéia de escravo e há documentos abundantes provando. A palavra mulato não: sua origem é incerta – basta você colocar as palavras mulato ou Mulatto e a palavra muwallad que você encontrará uma ampla literatura mostrando a incerteza sobre a origem da palavra. Mesmo que ela derivasse de mula, porém, não haveria problema em ser utilizada, já que quem emprega este termo não a emprega (exceto certos mestiçofóbicos) desejando depreciar ninguém – da mesma forma que quando alguém diz que é negro não está dizendo que é escravo. Por sinal, em momento algum eu disse que quem deseja identificar-se como negro não deva usar esta palavra. Eu não afirmei em relação à palavra ‘negro’ assemelhado com, “Mulato também não é identidade racial… E para os desinformados, essa palavra maldita…”.

    – Opositores dos mestiços têm defendido a imposição da palavra negro a nós, nós não temos defendido a imposição da palavra mulato aos mulatos que se identificam como negros nem aos negros.

    – A prática da desinformação tem sido grande; fazem isto também em relação à palavra ‘pardo’. O objetivo é deixar o mestiço sem palavras com as quais possa identificar-se como grupo. Uma tática realmente maldosa e opressora.

    – Esta é outra contradição do discurso anti-mestiço quando vindo de movimentos negros: a própria identidade negra surgiu por um processo de mistura entre diversas etnias africanas que desapareceram durante a formação da identidade negra. Sem este processo não haveria uma identidade negra etnicamente constituída, mas diversas etnias.

    – Sobre os EUA, não existiam apenas “duas partes”, havia (e há) também os Mulattos:
    http://www.mulatto.org/
    http://nacaomestica.org/blog4/?p=2562

    – Se não sabe sobre as tentativas de movimentos negros influenciarem mestiços, então você desconhece as demandas dos principais movimentos negros do país. Nós não precisamos que os movimentos negros nos dêem identidade racial alguma, nós já temos a nossa identidade étnica e é mestiça, gostem ou não os movimentos negros. Queremos que estes movimentos negros tão incomodados com os mestiços vivam em paz e deixem os mestiços em paz.

    – Nossa etnia mestiça é nativa, nasceu com o primeiro caboclo e já estava neste país antes da chegada do primeiro africano e não serão não-mestiços que irão dizer aos mestiços o que devemos fazer ou como devemos nos identificar. Quanto aos caboclos, não estou colocando palavra nenhuma “na boca”, estou perguntando.

    – Você disse: “Além do mais, é uma idiotice muito grande orgulhar-se de algum grau de ancestralidade européia que só está em nós porque nossas ancestrais tiveram que servir de objeto sexual pra satisfazer a um bando de escravizadores vagabundos”. Não preciso comentar mais.

    – Sobre os cafuzos, quando você não se identifica racialmente como cafuza, mas racialmente como negra, você está ideologicamente renegando os “genes ameríndios” que talvez tenha. Para o racialismo, cafuzo não é uma raça, mas uma identidade racial mestiça. Há diferença entre “raça” e “identidade racial”. Como mestiços, nós, na própria expressão ‘mestiços’, afirmamos que não abrimos mão de nossa ligação com nenhuma de nossas ancestralidades.

    – O senador Demóstenes não disse o que você afirma. Você disse, “É muito provável que os filhos de negros/as e índios/as não tenham surgido da mesma forma humilhante que os filhos de brancos e escravas. Porque durante o período de escravidão, o opressor era o branco, e não o índio ou o preto”.

    É provável que os casos tenham sido menos numerosos, mesmo porque estas uniões foram menos numerosas. Você já meditou sobre a questão da falta de mulheres nos quilombos?

    “Evidentemente que a presença deste número elevado de mulheres, se comparado aos oito índios capturados, nos evidencia uma clara preferência pela presença de mulheres índias no interior dos quilombos”, O mundo das feras: os moradores do Sertão Oeste de Minas Gerais — século XVIII, Marcia Amantino, p.152.

    Será que os índios aceitaram passivamente a invasão dos territórios deles por escravos fugitivos? Você acha que no caso dos índios tentarem expulsar os africanos e afrodescendentes estes iriam tranqüilamente sair do território indígena? Você acha que todas as uniões entre mulheres indígenas e pretos foram voluntárias e amorosas e que só os conquistadores brancos seriam violentos e violentadores de mulheres? Você acha que não havia machismo indígena nem africano? Você já pesquisou sobre como as mulheres indígenas eram tratadas no Brasil e na África, inclusive antes do contato com os europeus?

    Que houve violências não creio que haja ninguém que negue – e não devem ser esquecidas -; o problema está em intencionais deturpações da história com fins pouco dignos.

    – A principal ideologia de dominação sobre os não-brancos neste país atualmente está vindo do partido que está na presidência. O que você acha de você se manifestar contra o PL dos “territórios brancos” que quer criar áreas de monopólio da cultura européia em áreas nativas conquistadas pela força do poder branco? Ou branco opressor é só aquele que está lá no passado, ou que é de um partido de oposição?

  4. Denise says

    Não sei se os Movimentos Negros tem ou não o monopólio da palavra ‘afro-brasileiro’. Mas entendo que essa palavra refere-se a quem é negro/preto. Mesmo não sendo negro/preto puro… Também não sei por que os Movimentos Negros não usam palavras africanas pra se identificar. Talvez seja porque vivemos em um país onde o idioma que foi imposto pelos invasores europeus é o português. E é esse idioma que se deve usar pra se fazer entender. Se eu usar palavras em yorubá por exemplo, pouquíssimas pessoas me entenderão.

    Se a palavra ‘negro’ não tem uma origem e significado dignos, creio que não posso ser julgada por usá-la justamente por alguém que usa a palavra ‘mulato’, que também não tem uma origem e significado dignos… Ambos cometemos erros! Assim como toda a população brasileira os comete, e continuará cometendo enquanto essas duas palavras não forem “abolidas”.

    Em relação aos Estados Unidos, a palavra ‘mulato’ nunca foi bem aceita por nenhuma das duas partes. Nem pelos brancos racistas e nem pelos afro-americanos, que descobriram a sua origem e significado logo no início do século XX, e não se permitiram aceitar um termo claramente pejorativo… Mas é muita alienação dizer que essa palavra teve origem na Europa, ou que tem relação com o idioma árabe… Todo mundo sabe que a palavra ‘mulato’ nasceu aqui nas Américas durante o período escravista. Não há nenhuma dúvida quanto a isso.

    Também não sei se os Movimentos Negros influenciam mestiços a identificarem-se como afrodescendentes. Acho que é o movimento mestiço que tenta influenciar os afro-brasileiros a abandonar sua identidade. Olha o título do texto: Negritude, mística sem lugar no Brasil … A minha Negritude é minha identidade, mestiço não é identidade. E em relação aos caboclos, eu nunca disse que eles têm qualquer relação com a identidade afro-brasileira… Está colocando palavras na minha boca!

    Também nunca disse que sou adepta de uma “teoria” de que mestiço nasce sempre por violência e nunca por sexo consensual ou amoroso. Esta novamente colocando palavras na minha boca… Eu disse e reafirmo que DURANTE A ESCRAVIDÃO o sexo entre brancos e escravas era por imposição e por estupro. Isso é fato!

    É muito provável que os filhos de negros/as e índios/as não tenham surgido da mesma forma humilhante que os filhos de brancos e escravas. Porque durante o período de escravidão, o opressor era o branco, e não o índio ou o preto. Isso sem falar que os indígenas também sofreram muitos abusos por parte dos brancos… Portanto, não renego a qualquer porcentagem de genes ameríndios que talvez eu tenha, mas também não vou sair por aí me identificando como cafuza, porque isso não é identidade racial… Posso me identificar como ‘afrodescendente’, ‘preta’ ou ‘afro-brasileira’.

    Aliás, me surpreende muito que um movimento que diz defender os “mestiços” apóie o Demóstenes Torres. Ele sim é que deveria ser taxado de supremacista por insinuar que as escravas gostavam de ser violentadas… O Brasil inteiro sabe muito bem o que ele quis dizer. Mesmo que ele e seus apoiadores se façam de desentendidos.

  5. Denise says

    Não sei se os Movimentos Negros tem ou não o monopólio da palavra ‘afro-brasileiro’. Mas entendo que essa palavra refere-se a quem é negro/preto. Mesmo não sendo negro/preto puro… Também não sei por que os Movimentos Negros não usam palavras africanas pra se identificar. Talvez seja porque vivemos em um país onde o idioma que foi imposto pelos invasores europeus é o português. E é esse idioma que se deve usar pra se fazer entender. Se eu usar palavras em yorubá por exemplo, pouquíssimas pessoas me entenderão.

    Se a palavra ‘negro’ não tem uma origem e significado dignos, creio que não posso ser julgada por usá-la justamente por alguém que usa a palavra ‘mulato’, que também não tem uma origem e significado dignos… Ambos cometemos erros! Assim como toda a população brasileira os comete, e continuará cometendo enquanto essas duas palavras não forem “abolidas”.

    Em relação aos Estados Unidos, a palavra ‘mulato’ nunca foi bem aceita por nenhuma das duas partes. Nem pelos brancos racistas e nem pelos afro-americanos, que descobriram a sua origem e significado logo no início do século XX, e não se permitiram aceitar um termo claramente pejorativo… Mas é muita alienação dizer que essa palavra teve origem na Europa, ou que tem relação com o idioma árabe… Todo mundo sabe que a palavra ‘mulato’ nasceu aqui nas Américas durante o período escravista. Não há nenhuma dúvida quanto a isso.

    Também não sei se os Movimentos Negros influenciam mestiços a identificarem-se como afrodescendentes. Mas se o fazem, talvez seja para dar-lhes uma identidade racial, que certamente não terão identificando-se como mestiços… E em relação aos caboclos, eu nunca disse que eles têm qualquer relação com a identidade afro-brasileira… Está colocando palavras na minha boca!

    Também nunca disse que sou adepta de uma “teoria” de que mestiço nasce sempre por violência e nunca por sexo consensual ou amoroso. Esta novamente colocando palavras na minha boca… Eu disse e reafirmo que DURANTE A ESCRAVIDÃO o sexo entre brancos e escravas era por imposição e por estupro. Isso é fato!

    É muito provável que os filhos de negros/as e índios/as não tenham surgido da mesma forma humilhante que os filhos de brancos e escravas. Porque durante o período de escravidão, o opressor era o branco, e não o índio ou o preto. Isso sem falar que os indígenas também sofreram muitos abusos por parte dos brancos… Portanto, não renego a qualquer porcentagem de genes ameríndios que talvez eu tenha, mas também não vou sair por aí me identificando como cafuza, porque isso não é identidade racial… Posso me identificar como ‘afrodescendente’, ‘preta’ ou ‘afro-brasileira’.

    Aliás, me surpreende muito que um movimento que diz defender os “mestiços” apóie o Demóstenes Torres. Ele sim é que deveria ser taxado de supremacista por insinuar que as escravas gostavam de ser violentadas… O Brasil inteiro sabe muito bem o que ele quis dizer. Mesmo que ele e seus apoiadores se façam de desentendidos.

  6. Leão says

    Denise,
    Quem deu aos movimentos negros a autoridade para dizer a nós afro-brasileiros mulatos e cafuzos que nós seríamos negros? Quem deu aos movimentos negros o monopólio da palavra afro-brasileiro? Creio que não foram os criadores da língua portuguesa: as palavras “afro” e “brasileiro” não são de origem africana, ou seja, são do idioma de nossos ancestrais brancos portugueses; nós enquanto mulatos temos ligação histórica com elas, diferentemente dos negros (que, ao se identificarem como negros, negam tacitamente qualquer ligação com ancestralidade branca portuguesa e, por conseqüência, com direitos originários sobre a cultura portuguesa). Assim, se fosse dado consultar ao povo sobre uma mudança de significado da palavra afro-brasileiro, certamente não caberia aos negros ter direitos que nós mulatos não tivéssemos. Por que os movimentos negros não procuram uma palavra africana para identificarem-se e não palavras da cultura do homem branco, se tanto buscam isolar-se da ancestralidade branca? Isto não evitaria a “confusão racial” a qual você se refere?

    Já perguntastes também a opinião dos cabocos ou achas que estes mestiços de indígenas e brancos também delegaram aos movimentos negros a determinação da identidade deles? Por falar nisto, você não respondeu sobre a questão dos cafuzos: Os cafuzos para você como surgiram? Da mesma forma que os cabocos e mulatos? Se você for adepta da “teoria” de que mestiço nasce sempre por violência e nunca por sexo consensual ou amoroso, no caso dos mestiços cafuzos, qual a raça de nossos ancestrais homens que teria violentado nossas ancestrais mulheres?

    ————–

    “Como já disse no comentário anterior, não somos negros puros, mas somos negros. Afinal, não se trata de pureza racial e sim de identidade racial…”
    ————–

    Logo, identidade racial não está associada mecanicamente ao físico. Logo, mestiço não tem porque identificar-se como branco ou negro, mesmo que tenha parte dos dois.
    ————-

    “Algumas pessoas não são 100% brancas mas se identificam como tal, e ninguém fica tentando influenciá-las a identificar-se como mestiços.”
    ———–

    Nazistas e outros supremacistas brancos descartam mestiços, principalmente mulatos. Mas se sua afirmação fosse verdadeira, seria um motivo a mais para os movimentos negros não ficarem tentando influenciar os mestiços a identificarem-se como negros ou, pior, impondo a eles a identidade negra. Não é o movimento mestiço que está tentando influenciar brancos ou negros a identicarem-se como mestiços. Nós defendemos nosso direito de sermos o que somos, mestiços, e de não sermos obrigados a assumir uma identidade imposta por terceiros. Esta imposição sim é um “estupro identitário”: a imposição do corpo de alguém ao corpo de outra pessoa.

    Há teorias inconclusivas sobre a origem da palavra mulato (latina e árabe) e estas indicam que a palavra tem raízes na Europa bem anteriores ao escravismo de africano. Quanto à palavra negro, não há dúvida que ela está associada a escravo (por isto os navios eram “negreiros” e não “preteiros”; por isto havia os “negros da terra”, os índios escravizados; por isto ela é repudiada pelos “Blacks” (e não “Negroes”) nos EUA e em outros países; por isto ela nunca constou nos censos brasileiros, mas ‘preta’).

    Sobre os EUA, os “Blacks” (pretos), e não ‘negros’, não foram os responsáveis para tirar a palavra “Mulatto” do censo de lá, mas sim organizações como a KKK. Para rebaixar os pretos, eles retiraram também a palavra “Black” e as substituíram por “Negro”: http://nacaomestica.org/blog4/?p=317 “Black” só voltou ao censo dos EUA após a morte de Martin Luther King e uma das demandas dos “African Americans” é retirar a palavra “Negro” do censo. http://nacaomestica.org/blog4/?p=300

    Sobre o senador Demóstenes Torres, ele não disse a frase que você atribuiu a ele. Esta estratégia de associar estupro com mestiçagem é uma tática mestiçofóbica que difunde preconceito e desinformação. Para ver, ler e ouvir o que o senador disse: http://nacaomestica.org/blog4/?p=645

    Por que será que movimentos negros não apoiaram a PEC 94/03, do senador Demóstenes visando garantir o ensino fundamental em período integral a toda criança, o que beneficiaria a educação de um número muitíssimo maior de afrodescendentes do que o PL das Cotas Racias? Será pelo fato dele ser da oposição?

    Tenho lido muitos textos onde os brancos colonizadores, que já não podem se defender ou ameaçar, são acusados de muitas coisas. Contrastando com isso, há um estranho silêncio em relação a certas atitudes de brancos vivos, como o do PL petista dos “territórios brancos” que diz explicitamente visar à preservação da “identidade racial”. Hitler e outros mestiçofóbicos apoiariam com entusiasmo este PL. Nunca soube de movimentos negros lembrando que em diversos destes territórios, pretos (além de indígenas e caboclos) foram expulsos para dar lugar a imigrantes. http://nacaomestica.org/blog4/?p=1962

  7. Denise says

    A identidade afro-brasileira é a identidade dos NEGROS brasileiros, portanto, quem é afro-brasileiro, é negro… E quem não é negro, não é afro-brasileiro… A confusão racial só tem servido pra tornar mais fácil o controle das elites sobre o povão.

    Mestiço não é identidade racial… A identidade dos afro-brasileiros não é de mestiços afrodescendentes, é de negros ou pretos. Como já disse no comentário anterior, não somos negros puros, mas somos negros. Afinal, não se trata de pureza racial e sim de identidade racial… Algumas pessoas não são 100% brancas mas se identificam como tal, e ninguém fica tentando influenciá-las a identificar-se como mestiços.

    Sou totalmente a favor do orgulho racial negro/preto, que é extremamente importante para a auto-estima dos afro-brasileiros, pois além de sermos descendentes de pessoas que saíram da escravidão com uma herança de humilhações e exploração, vivemos em um país racista no qual todas as características ‘afro’ são classificadas como coisas inferiores.

    Mulato também não é identidade racial… E para os desinformados, essa palavra maldita teve origem na época da escravidão. Quando as escravas eram estupradas pelos brancos, muitas vezes havia a gravidez… Após o nascimento dessas crianças, os “colonizadores” as chamavam de mulatas tentando fazer uma comparação com as mulas. Porque as mulas são indivíduos híbridos, que resultam do cruzamento entre animais diferentes (jumento com égua). Dessa forma, fazia-se uma alusão ao fato da criança também ser o resultado da união entre indivíduos diferentes (branco e negra)… É um absurdo que essa palavra seja usada por nós até hoje, porque representa um desrespeito e preconceito muito grandes… Nos Estados Unidos, os negros americanos passaram a considerar a palavra ‘mulato’ como ofensiva já no primeiro quarto do século XX, e nós estamos nessa palhaçada até hoje.

    Aliás, tem muito fundamento histórico dizer que as relações entre as escravas e seus “donos” ocorreram por imposição. Porque escravo não tem vontade própria. Ou faz o que seu “dono” quer ou vai para o tronco. É assim que era! Sem meio termo! … Além disso, escravo não tem direitos, portanto, se alguma escrava fosse estuprada pelos empregados brancos do Senhor de engenho, não teria como reivindicar justiça. E se os negros da senzala tentassem fazer justiça, certamente seriam punidos por agredir pessoas brancas… Pensar que os brancos daquela época não se aproveitavam de tudo isso é acreditar em conto de fadas.

    Não creio que uma mulher possa sentir algum desejo de se entregar àqueles que se julgam superiores a ela e que a escravizam… Nem àqueles que privam a ela e à sua família de liberdade, fazendo-os trabalhar a vida inteira de graça… Também não creio que as mulheres que vêem seus pais, irmãos e outras pessoas de seu povo receberem chibatadas presos a um tronco possam sentir algum desejo pelos responsáveis por isso.

    Então não me venha com essa de que estou deseducando os negros sobre o passado, porque deseducar é fazê-los acreditar naquela imbecilidade que o palhaço do Demóstenes disse: “Na época da escravidão o estupro era consensual!”… Como é que uma pessoa que está sendo estuprada está consentindo?

    Em relação ao Projeto Lei 3056/08, o que eu li foi que Angelo Vanhoni argumenta que o País já conta com normas para a preservação da cultura indígena (Estatuto do Índio) e da afro-brasileira (Decreto 3.912/01), mas lembra que seria importante preservar todas as manifestações. Ele destaca especificamente as comunidades tradicionais de pescadores e seringueiros, assim como de imigrantes italianos, japoneses, alemães, ciganos e também das diferentes etnias africanas, como bantus e Yorubás.

    Com o objetivo de preservar as contribuições desses povos à cultura nacional, o projeto determina que, nos processos de reforma agrária onde houver unidades de preservação do patrimônio dessas populações, os novos colonos devem receber treinamento sobre as técnicas agrícolas tradicionais.

    Espero que não haja objetivos supremacistas por trás disso!

  8. Leão says

    Denise,
    Eu sou afro-brasileiro e não sou negro, sou mestiço, com ancestrais também indígenas (como a absoluta maioria dos afrodescendentes). Esta é minha identidade étnico-racial e não a negra. Você citou diversos exemplos de pessoas que, apesar de serem mestiças, preferem identificar-se como negras (ou pretas, pois na África a palavras ‘Negro’ é ofensiva para diversas pessoas). Se um mulato pode se identificar como negro quanto mais ele pode identificar-se como o que objetivamente é, um mestiço. Na própria África há milhões de pessoas que se identificam como mestiças, como os Coloureds da África do Sul, e que inclusive são discriminadas pelos pretos. Ou seja, mestiço, em regra, não é negro nem na África.

    Não sou a favor de orgulho racial, não coloco minha ancestralidade africana acima da européia nem a européia acima da africana ou da minha ancestralidade nativa. Dizer que todas as relações entre europeus e nativas e africanas ocorreu por imposição não tem qualquer fundamento histórico – trata-se de uma generalização que serve, entre outras coisas, para deseducar os próprios afro-descendentes e inventar um falso passado que leve os mestiços a se alienarem de sua identidade.

    E o sangue nativo dos mestiços afrodescendentes? Os mestiço afrodescendentes também devem renegar sua origem nativa? Os cafuzos para você como surgiram? Da mesma forma que os cabocos e mulatos?

    Há supremacistas brancos no Brasil e em outros países. São atuantes e poderosos e a grande ameaça ao poder deles é a miscigenação e o mestiço. Como a mestiçagem está cada vez mais avançando eles precisam isolar um “espaço do negro” para legitimar um espaço próprio de onde possa manter seu supremacismo racial.

    Por que será que os movimentos negros não têm se manifestado contra o PL petista dos “territórios brancos”? Leia http://nacaomestica.org/blog4/?p=880 Por que será que somos nós do movimento mestiço (vistos por alguns como apoiadores das “classes dominantes que sempre sonharam com um Brasil sem negros”) que estamos denunciando este PL?

  9. Denise says

    Tem que ser muito alienado pra dizer que a Negritude é uma mística no Brasil!

    No Brasil a Negritude é uma realidade biológica e cultural incontestável!

    É impressionante o esforço de algumas pessoas em destruir a identidade étnico-racial dos afro-brasileiros. Tentam nos convencer de que não somos negros. É muito ridículo!

    Nós, afro-brasileiros, podemos não ser negros puros, mas somos negros sim. Mesmo tendo algum grau de miscigenação. Além do mais, algumas pessoas tem que parar de agir como se a miscigenação fosse uma exclusividade do Brasil. Porque não é! Ela existe no mundo inteiro. Por exemplo:

    O povo Dogon, que habita o oeste da África, são negros que tem algum grau de ancestralidade egípcia. Mas identificam-se culturalmente como dogons, e racialmente como negros.

    O povo Lemba do Zimbabwe, são negros que tem algum grau de ancestralidade judaica (que já foi até comprovada por testes de DNA). Mas identificam-se culturalmente como israelitas, e racialmente como negros.

    Os negros norte-americanos têm algum grau de ancestralidade européia (britânica) e indígena, mas identificam-se como afro-americanos… E a lista continua!

    Ou seja, os afro-brasileiros não são os únicos negros com algum grau de miscigenação. No entanto, os negros de outras partes do mundo podem identificar-se como tal mesmo não sendo puros, mas nós somos influenciados a abandonar a nossa identidade negra pra satisfazer às vaidades das classes dominantes que sempre sonharam com um Brasil sem negros.

    No Brasil sempre houve afirmações tendenciosas voltadas à eliminação da identidade afro-brasileira. Por exemplo: Recentemente foram feitos testes de DNA em alguns negros famosos. E me chamou muito a atenção o fato de terem exaltado a miscigenação da Diane dos Santos… Disseram que ela é a cara do Brasil porque seus genes apontaram 40,8% de ancestralidade européia, 39,7% africana e 19,6% ameríndia… Mas por que a Sandra de Sá, cujos testes apontaram 96,7% de genes africanos, também não pode ser considerada a cara do Brasil? E outros, como Seu Jorge, cujos testes apontaram 85,1% de genes africanos, e Milton Nascimento com 99,3% de genes africanos? Será que eles são menos brasileiros que a Diane por terem maior ancestralidade africana?

    Além do mais, é uma idiotice muito grande orgulhar-se de algum grau de ancestralidade européia que só está em nós porque nossas ancestrais tiveram que servir de objeto sexual pra satisfazer a um bando de escravizadores vagabundos.

  10. julia cavalcante says

    – para james maurice

    caso você não saiba, os negros ainda vivem segregados nos estados unidos. negros e brancos não se misturam, é cada um no seu canto. que justiça é essa?

  11. Leão says

    O mestiço não foi uma criação de Gilberto Freyre. Os mestiços caboclos já viviam no Brasil antes da chegada dos primeiros africanos. Quando os portugueses começaram a colonizar o Brasil efetivamente em 1530, encontraram o português Caramuru vivendo onde hoje é a Bahia, casado com duas índias e pai de diversos mestiços. Caramuru sobrevivera a um naufrágio ocorrido por volta de 1510. Os africanos chegaram ao Brasil oficialmente em 1549. Reduzir a questão a mestiçagem brasileira apenas a brancos e negros é cometer um erro de história e tratar de um Brasil irreal. Ironicamente talvez tenha sido a ênfase de Gilberto Freyre na questão do mulato que involuntariamente serviu para quase restringir ao mulato a representação da mestiçagem nacional. Embora critiquem Gilberto Freyre, os debates sobre a questão da mestiçagem no Brasil ainda costumam girar em torno do mulato, inclusive na defesa de que negros sejam a soma dos pretos e pardos feita por muitos dos críticos de Freyre. Antes de Freyre, o caboclo predominava na representação da mestiçagem nacional.

  12. james maurice says

    opnião meramente pessoal do senhor freyre!!com certeza um marxista nacionalista ao extremo ,manipulador ,que tenta criar um novo tipo no brasil,modelo exportação,”o mestiço”!a luta do negro brasileiro não é uma luta territoial isolada localmente,lutamos por um mundo racialmente justo,por isso buscamos referencias de lutas que deram resultados ,sem medo de parecer americanizado,digo que o país que mais conseguiu resultados em materia de justiça racial foi os E.U.A!!!!

  13. Leão says

    Omni, esta é uma comunidade que valoriza a mestiçagem. Como a maioria dos brasileiros, descendentes de indígenas, brancos portugueses e pretos africanos, somos mestiços destas e de outras misturas. Valorizamos igualmente todos os nossos ancestrais, por isto não nos identificamos apenas com uma única ancestralidade, mas com a identidade mestiça que nasce da mistura delas. Assim, mestiço negrófobo ou mestiço que se orgulhe mais de um “sangue ariano” do que dos demais estaria desvalorizando a si mesmo e se alienando.

    Negros no Brasil são muito poucos, descendentes de imigrantes africanos recentes; nossos ancestrais pretos africanos trazidos pelo escravismo miscigenaram-se e os imigrantes africanos recentes também estão miscigenando-se. Os pretos brasileiros são cafuzos e mulatos de pele escura – da mesma forma que há mulatos e caboclos de pele clara que se identificam como brancos. Assim, o que há são mestiços que optaram por se identificar como negros ou como brancos, alguns deles pardos, mesmo sabendo que são mestiços (o que é direito deles).

    Há outro posicionamento. Há mestiços que se identificam com o que objetivamente são. Assim, não ‘optam’ por ser mestiços: eles são mestiços.

    Para muitos, talvez a maioria, preto, pardo e branco são apenas termos de cor, desvinculado de etnia; vêem-se unicamente como brasileiros.

    No artigo acima, Gilberto Freyre afirma que, “Aqui, mais que em outra área ocupada por grande nação, a tendência vem sendo imperfeita porém crescente para a síntese cultural através da interpretação de culturas, quer básicas, quer contribuintes ou ancilares – e para a superação de filiações absolutas e etnias ou a “raças” fechadas, por uma já brasileiríssima consciência de meta-raça ou seja uma além-raça que supera aquelas extrema filiações a etnias de origem, Filiações que competissem com a identificação com o Brasil”; e “não há, no nosso País, vez para negritudes ou branquitudes”. Ele faz uma crítica a quem coloca a identidade racial ou étnica acima da identidade nacional brasileira.

  14. Omni says

    Peraí,
    Acompanhando os posts desta comunidade fico em dúvida se vocês são francamente negrófobos, ou tacanhamente pró-arianos!?



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