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Mestiçofobia acadêmica: cromo-inversão e etno-inversão – Leão Alves

“É geral no mundo a noção exacerbada de raça, que não afeta só os brancos, mas os amarelos, vermelhos, negros; todos desprezam o meia casta, exemplo vivo da infração à lei tribal.

“Eu acho que um povo mestiço, como nós, deveria assumir tranqüilamente essa sua condição de mestiço; em vez de se dizer negro por bravata, por desafio – o que é bonito, sinal de orgulho, mas sinal de preconceito também”,

Rachel de Queirós

A influência do racismo “científico” ainda se manifesta na educação brasileira. Quando cursava a disciplina de medicina legal na década de oitenta, estudei um livro que possuía um capítulo intitulado, “Distúrbios do instinto sexual”. No rol das definições constantes nele, que incluía entre outras as de bestialismo, pedofilia e necrofilia,  constavam as definições de ‘cromo-inversão’ e ‘etno-inversão’. A primeira era definida como, “a propensão erótica de certos indivíduos por outros de cor diferente. Como exemplo, podemos citar os portugueses na sua irresistível predileção às nossas mulatas”; e a segunda como, “uma variante da cromo-inversão. A etno-inversão é a manifestação erótica por pessoas de raças diferentes. Além de constituir um tipo raro de distúrbio sexual, não se mostra como problema sexual relevante”.*

Para o racismo “científico”, mestiço seria um ser degenerado. Nina Rodrigues (1862-1906) foi um nome destacado do racismo “científico” no Brasil. Médico maranhense, professor da Faculdade de Medicina da Bahia, fez parte de uma lista de intelectuais, muitos deles professores universitários, que viam na miscigenação um processo que conduziria à degradação do que entendiam ser a melhor parte dos humanos, a “raça branca”.

Estes pensadores defendiam, também, a existência de “raças puras” as quais, segundo critérios físicos e psicológicos, poderiam ser hierarquizadas.

Uma outra idéia destes racistas, e menos lembrada, era a crença de que as “raças inferiores”, ainda que “inferiores”, teriam evoluído de modo a se adaptarem ao seu meio. Por isso a mistura racial degradaria inclusive as “raças inferiores”, pois o mestiço seria um ser inadaptado a qualquer ambiente. Em Mestiçagem, degenerescência e crime, de 1899, Nina Rodrigues comenta (todos os negritos deste artigo são nossos),

“O cruzamento de raças tão diferentes, antropologicamente, como são as raças branca, negra e vermelha, resultou num produto desequilibrado e de frágil resistência física e moral, não podendo se adaptar ao clima do Brasil nem às condições da luta social das raças superiores.”

Assim, para estes racistas o mestiço seria por essência um ser doentio no corpo e na mente, sendo que quanto mais se afastasse das características das “raças puras”, mais refletiria em problemas psicológicos este alegado defeito de origem. No mesmo trabalho, Nina Rodrigues, comentando duas afirmações sobre mestiços, assim se expressa,

“Couto de Magalhães afirma que o melhor mestiço (de branco com índio) é aquele que resulta do tronco branco com no máximo um quinto de sangue indígena. Ladislau Netto observou em famílias mulatas que os filhos nos quais se acentuam as características da raça negra é que são por vezes os mais inteligentes.

“Nesses casos, os mestiços são mais ou menos retornados ao equilíbrio de uma das raças puras, e se distanciam dos tipos rigorosamente médios nos quais parece se revelar em toda sua plenitude, em toda sua brutalidade, o conflito que irrompeu entre qualidades psíquicas e condições físicas e fisiológicas muito desiguais de duas raças profundamente diferentes, características que a hereditariedade fundiu numa combinação, num amálgama defeituoso, no produto resultante da união, do cruzamento, das duas raças.”

Em As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil, de 1894, Nina Rodrigues registra um comentário do naturalista suíço Louis Agassiz (1807-1873), que havia viajado pelo Pará e Amazonas,

“O resultado de não interrompidas allianças entre sangues mixtos é uma classe de homens nos quaes o typo puro desappareceu, e como elle todas as boas qualidades physicas e moraes das raças primitivas, deixando era seu logar um povo degenerado, tão repulsivo como esses cães, producto de uma cadella de caça, como um gôso, com horror dos animaes da sua especie, entre os quaes é impossível descobrir um unico individuo tendo conserva-do a inelligencia, a nobreza, a affectividade natural que fazem do cão de typo puro o com-panheiro e o favorito do homem civilisado”, com exceção dos negritos, conforme original.

Outra observação do mesmo Louis Agassiz, em A Journey in Brazil (1868),

“Qualquer um que duvide dos males da mistura de raças, e inclua por mal-entendida filantropia, a botar abaixo todas as barreiras que as separam, venha ao Brasil. Não poderá negar a deterioração decorrente da amálgama das raças mais geral aqui do que em qualquer outro país do mundo, e que vai apagando rapidamente as melhores qualidades do branco, do negro e do índio deixando um tipo indefinido, híbrido, deficiente em energia física e mental” (Citado em O Espetáculo das Raças, de Lilia M Schwarcz. São Paulo: Companhia das Letras, 1993)

Além deste visitante, o Brasil hospedou também o talvez mais famoso dos teóricos racistas, o francês Joseph Arthur, conde de Gobineau (1816-1882). Para ele o mestiço era um ser tão degenerado que esta suposta degeneração, além de afetar suas qualidades morais, manifestava-se numa limitada capacidade reprodutiva. Numa carta de 1867, respondendo ao Ministro das Relações Exteriores da França sobre a questão da abolição da escravatura no Brasil, ele comenta:

“É preciso reconhecer que a maioria do que chamamos de brasileiros compõe-se de sangue mestiço, sendo mulatos e filhos de caboclos de graus distintos. Eles estão em todos os escalões sociais. O Senhor Barão de Cotegipe, atual Ministro das Relações Exteriores, é mulato; no Senado há homens desta categoria; em uma palavra, quem diz brasileiro diz, com raras exceções, homem de cor. Sem entrar no mérito das qualidades físicas ou morais destas variedades, é impossível desconhecer que elas não são laboriosas, ativas ou fecundas. As famílias mestiças destroem-se tão rapidamente que certas categorias existentes há apenas vinte anos já não mais existem, como por exemplo os mamelucos. E, por outro lado, a grande maioria dos fazendeiros, cuja desagradável situação econômica expus-lhe ainda agora, vive num estado muito próximo da barbárie, no meio de escravos, e deles não se diferenciam nem por gostos mais sofisticados, nem por tendências morais mais elevadas”, citado em O Inimigo Cordial do Brasil – O Conde de Gobineau no Brasil, de Georges Raeders (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988).

Gobineau chegou a calcular o desparecimento da população brasileira em 270 anos.

Estas idéias permaneceram no universo acadêmico até o séc. XX, dando apoio “científico” a plataformas políticas racistas tanto nas Américas quanto na Europa. A idéia de que os mestiços fossem seres essencialmente conflituosos e de que quanto mais próximos das “raças puras” mais estariam destituídos de problemas físicos e psicológicos também foi defendida pelo ditador nazista Adolf Hitler em seu livro Minha Luta, de 1926 (grifos nossos),

“Desde que a nacionalidade, ou, melhor, a raça, não está na língua que se fala, mas no sangue, só se deveria falar em germanização se, por um tal processo, se pudesse modificar o sangue dos indivíduos. Isso é absolutamente impossível. Essa modificação teria que ser feita pela mistura do sangue, o que resultaria no rebaixamento do nível da raça superior. A conseqüência final seria a destruição justamente das qualidades que tinham preparado o povo conquistador para a vitória. Por uma tal mistura com raças inferiores, sobretudo as forças culturais desapareceriam mesmo que o produto daí resultante falasse perfeitamente a língua da raça superior. Durante muito tempo, travar-se-á uma luta entre os dois espíritos e pode ser que o povo que desce cada vez mais de nível consiga, por um esforço supremo, elevar-se e criar uma cultura de surpreendente valor. Isso pode acontecer com os indivíduos das raças mais elevadas ou com os bastardos, nos quais, no primeiro cruzamento, ainda prevalece o melhor sangue: nunca se verificará, porém, esse fato com os produtos definitivos da mistura. Nesses verificar-se-á sempre um movimento de regressão cultural”.

Estas idéias, porém, não eram exclusividade de regimes totalitários. Em democracias consolidadas como a dos Estados Unidos elas também estavam presentes. A guerra contra o nazismo não foi movida por aversão ao racismo; diversos países aliados também possuíam leis racistas.

O racismo científico, porém, sofreu uma grande perda em sua credibilidade no pós-guerra, entre outros motivos pelo maior conhecimento da genética, que colocou em descrédito a idéia de que haja raças humanas biológicas.

Leão Alves é médico e secretário-geral do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro – Nação Mestiça

leao_alves@yahoo.com.br

* Vide Genival V. França. Distúrbios do instinto sexual. In: Medicina Legal. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1987. p. 164.

Este artigo foi anteriormente publicado com o título “A Purificação Racial da ‘Aberração Mestiça'”.

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