Skip to content


Mestiços, mesmo que não lhes convenha – Alfonso Gumucio Dagron

Deve-se reconhecer que a decisão de nomear Arce Catacora na candidatura presidencial foi um sucesso, pois se Choquehuanca fosse candidato, o MAS não teria obtido tantos votos, já que o “larama” representa apenas uma minoria aimará da população boliviana.

Em 2009, o MAS impôs uma Constituição Política do Estado em um quartel militar em Sucre que não reflete a realidade do país, pois simboliza um Estado predominantemente indígena, uma mera suposição que não corresponde à verdade. O que era verdade há mais de meio século não é verdade agora.

O Censo de 2012 revelou exaustivamente que apenas 1.191.352 bolivianos se consideram aimarás, ou seja, apenas 17%. Os números são impressionantes: da população cadastrada de 6.916.732 habitantes com mais de 15 anos, 4.032.014 NÃO são considerados indígenas, ou seja, 58% do total.

Esses resultados explicam por que o governo de Evo Morales não quis transmiti-los com o mesmo bumbo e e címbalo que ele costumava usar para abrir novas quadras de grama sintética ou transmitir discursos ao vivo tão vociferantes quanto inconsequentes. De que país indígegna-originário eles estão nos falando?

Vamos parar de falar de histórias: a Bolívia é um país predominantemente pluricultural e mestiço, ou se você quer uma “formação social variada” como escreveu Zavaleta em 1967, e agora com mais razão. A história que Evo Morales quis impor com suas aparições teatrais e seus figurinos de rei sol em Tiwanaku serviu para exportar uma fábula que não corresponde à realidade. A tardia invenção da wiphala como bandeira aimará e sua elevação a símbolo nacional foi uma afronta às demais etnias reconhecidas na Constituição Política do Estado. O Estado Plurinacional com o qual se trocou o nome da República da Bolívia foi outro estratagema sem correlação com a realidade deste século.

As aberrações simbólicas constroem uma falsa imagem da Bolívia, fragmentada em parcelas nacionais como pequenas propriedades, e exacerbam a polarização racial de uma forma que não acontecia desde antes da Guerra do Chaco. No discurso do MAS, o país está dividido entre “índios e brancos”, mas na realidade cotidiana mestiços como o próprio Morales (que nem fala a língua de seus pais), exerceram o poder durante a era do MAS.

Conforme evidenciado pelo censo de 2012, a Bolívia é mestiça, embora a categoria não tenha aparecido na cédula elaborada com a intenção de favorecer a autoidentificação étnica com um critério de “pureza de raça” ao invés de integração cultural. Talvez eles tivessem mais sorte se perguntassem sobre a língua materna ou primeira língua falada.

As gerações que atingiram a maioridade desde 2012 são consideradas menos indígenas do que seus pais. As jovens abandonaram definitivamente a saia que suas mães ainda usam e optam por usar calças. Como os homens, preferem dar as costas ao Estado e tornar-se comerciantes informais graças à profusão de contrabando favorecida pela permeabilidade das fronteiras e pelo câmbio do dólar subsidiado pela crescente dívida do Banco Central.

É por isso que o reaparecimento de Choquehuanca há um ano com sua nova máscara de conciliador indígena não convenceu mais do que um punhado de incautos. A realidade é que o ministro mais antigo dos governos de Evo Morales, estava cercado de “k’aras” em seu gabinete, embora trajassem jaquetas com fitas de fino desenho nativo. O aimara que gostaria de se fazer passar por xamã das novas gerações do MAS não representa hoje a face diversa dos bolivianos, embora seus discípulos queiram alterar os narizes batendo neles.

Se o novo censo persistir em desenhar uma cédula onde não existe a categoria de mestiços, terá um resultado político pior do que em 2012. A estratégia de autoidentificação étnica já mostrou seus limites: os jovens bolivianos fazem parte de uma sociedade que evoluíu, para melhor ou para pior, e são culturalmente reconhecidos no caldeirão de misturas e não na suposta pureza de uma raça. A teimosia racista do regime do MAS é um bumerangue que voltará para cortar a cabeça de alguns impostores.

Traduzido de Mestizos, aunque no les convenga (site Página Siete).

Posted in Artigos, Masismo.


0 Responses

Stay in touch with the conversation, subscribe to the RSS feed for comments on this post.



Some HTML is OK

or, reply to this post via trackback.

Comments Protected by WP-SpamShield Anti-Spam