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Cotas raciais: o que é o movimento mestiço e por que movimentos negros da esquerda o combatem – Leão Alves

O Estado do Amazonas possui o maior percentual de pardos do país, 69% da sua população segundo o último censo do IBGE, destacadamente formada por mestiços de índios e brancos, os caboclos, e um dos menores percentuais de autodeclarados pretos, 4,1%. A distribuição, porém, das 13 vagas destinadas à “sociedade civil organizada” do edital para compor o Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Amazonas (CEPIR) é reveladora: 1 para Movimento Negro, 1 para Mulheres Negras, 1 para Juventude Negra, 1 para Movimento Afro-LGBT, 1 para Movimento Cultural Afro, 2 para Religiões de Matriz Africana, 1 para Capoeira, 1 para Povos Indígenas, 1 para Povo Judeu e, ah sim, 1 para Mestiços e 1 para Caboclos. Estas duas últimas vagas constando graças à ação do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro junto ao Ministério Público diante de radical oposição de movimentos negros que seguem a ideologia racial do PT e assemelhados.

O fracasso dos opositores das cotas raciais em impedir que estas virassem leis reflete o despreparo e desorganização da direita brasileira para enfrentar a esquerda em assuntos raciais e o desconhecimento da origem e objetivos das políticas de cotas raciais implantadas no Brasil. Enquanto atinge seu objetivo, a esquerda lança alvos no ar para a direita descarregar sua frustração e fantoches para aplaudir.

Em 2001, em Manaus, decidimos criar um site. Mas sobre o quê? Após breve meditação, escolhemos mestiçagem como tema. O site visaria a ser uma fonte para livros, filmes, notícias, artigos, legislações e outros materiais sobre mestiçagem. Decidimos, então, verificar quais os sites sobre o mesmo assunto que havia na Internet. Para nossa surpresa, encontramos dezenas com origem nos EUA e Europa, enquanto no Brasil, onde imaginávamos encontrar muitos, não havia um só dedicado especificamente ao tema.

À medida que íamos coletando materiais, compartilhando e comentando com amigos e conhecidos, alguns conteúdos nos chamaram especial atenção. Um deles a prática de certos autores e instituições de classificarem pardos como negros. Inicialmente pensávamos que fosse algum equívoco ou desatenção, tal a obviedade de que pardo é tão negro quanto verde é amarelo ou azul, e acreditávamos que bastaria informar o erro que ele seria prontamente corrigido.

Não demorou, porém, para percebermos que não era um equívoco ou detalhe, mas “enegrecer” os pardos estava no centro de uma teia armada por aranhas vermelhas muito espertas e convictas para enrolar, imobilizar e sugar o mestiço brasileiro até sua extinção como identidade – destaco, identidade – racial e étnica e da mestiçagem como unificadora do povo brasileiro.

Vimos a necessidade, então, de organizamos o Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro (Nação Mestiça) para defender o processo espontâneo de mestiçagem no país e o mestiço brasileiro como uma identidade étnica própria.

O Nação Mestiça conquistou diversas legislações e o ódio de negristas, de indigenistas, de nazistas e de outros grupos que não simpatizam com mestiçagem.

Mas qual o interesse da esquerda em atacar mestiçagem e impor aos mestiços a classificação como negros?

A absoluta maioria da direita não percebeu o objetivo e, como nós fazíamos, trata isto como um simples equívoco ou algo secundário, caindo na armadilha diversionista da esquerda de debater se cotas raciais são justas ou não, se raça existe ou não, em vez de desmascarar tanto o objetivo real quanto o caráter essencialmente racista deste objetivo.

Resumidamente, o objetivo das cotas raciais é unificar pretos e pardos dentro de uma categoria denominada ‘negro’ a fim de colocar estes ‘negros’ a serviço da luta de classes. Isto foi explicitamente afirmado pelo deputado constituinte petista Florestan Fernandes, sociólogo-militante da Universidade de São Paulo, em seu livro Significado do Protesto Negro:

“Você não pode eliminar a raça como você não pode eliminar a classe. Elas estão aí. E para que as duas possam interagir, a raça tem de ser absorvida pelo conflito de classe. Porque, se o negro e o mulato quiserem defender a sua posição em termos estritamente raciais, eles se segregam e não terão a mesma importância que eles teriam. Pois, veja bem, o negro e o mulato são fermentos revolucionários tremendos na sociedade brasileira, na medida em que eles não se segreguem, e levem o protesto racial para dentro da luta de classes.”

Em resumo: para o negrismo esquerdista, mulato deve ser absorvido por negro e ambos absorvidos pela “luta de classes”, ou seja, ficarem a serviço dos líderes e da agenda comunistas. Neste arrasto, não importa se os caboclos e “ainocôs” forem juntos.

Obviamente isto é supremacismo racial: ser negro seria superior a ser mestiço.

É também “etnocida”, pois visa à morte identitária de um grupo étnico mestiço pela imposição de uma renegação em massa e oficial aos pardos.

“Mas raça não existe”, diz o direitista desavisado e o esquerdista esperto para tirar o foco da questão.

“Mas quando alguém se diz pardo está repudiando o conceito de raça”, diz o outro livrando o petismo e similares de acusação de racismo e os ajudando sem perceber, ou não, a apagar os mestiços.

É também racismo contra branco e um fermento para fragmentação e revanchismo racial. Em um país onde a quase totalidade dos descendentes de pretos africanos é parda (inclusive os de aparência preta, pois pardo é qualquer mestiço), por que os ideólogos comunistas optaram por classificar pardos como negros e não os pretos como pardos? A resposta: para apagar o vínculo do mestiço com sua ancestralidade branca e inspirar movimentos intolerantes do tipo Black Lives Matter.

Nesta armadilha muitos direitistas também têm se enrolado imaginando estar enrolando a esquerda. Desde quando a eleição do então candidato Jair Bolsonaro à presidência tornou-se muito provável e o clima político prenunciou a chegada da estação da direita, começaram a brotar uns tipos raríssimos de serem encontrados nas agressivas estações petistas: os “negros de direita”, em regra pardos que, seguindo a cartilha de Florestan Fernandes, declaram-se negros para posar de opositores aos “negros de esquerda”. Não me recordo de um só deles se manifestando contra cotas raciais à época do governo Lula.

O CEPIR já tivera um edital e eleição. Os conselheiros eleitos, porém, nunca foram empossados, de modo a evitar que houvesse uma representação mestiça dentro do sistema de igualdade racial, que foi criado pelo PT exatamente para assimilar os mestiços e torná-los, como dito acima, em “fermentos revolucionários”.

O Estado do Amazonas também é um dos poucos do país a não ter um Estatuto Estadual da Igualdade Racial. Por quê? Porque o PT, PCdoB e os movimentos negros que o servem são contrários a referência a mestiços no texto como identidade distinta da “negra”.

Um PL que incluía mestiços estava à beira de ser aprovado na Assembleia Legislativa do Amazonas (ALEAM) e ir à sanção, mas foi arquivado, inclusive por intromissão de última hora da OAB.

Tentaram criar uma minuta de um novo PL excluindo mestiços, em reuniões ocorridas e promovidas dentro da estrutura do governo estadual, mas a resistência do movimento mestiço e intervenção do MPAM frustraram até o momento o objetivo. O caminho do negrismo agora é eleger um conselho dominado, fazer uma nova minuta sem referência a mestiços e apresentá-la à ALEAM como sendo a expressão da vontade da “sociedade civil organizada” do Estado.

Uma simples leitura do edital publicado mostra o controle negrista sobre o processo de inscrição à eleição, permitindo inclusive o “chapão” e que as organizações de movimentos negros votem em quem deva representar os mestiços.

Todos os movimentos negros discriminam mestiços? Não há dados para afirmar isto, inclusive porque infelizmente os movimentos raciais e personalidades que visam realmente a combater racismo e não a usar o problema para preservar raças e promover orgulho racial não costumam receber muita divulgação na grande mídia. Preferem as ” Marielle Franco “ da vida.

Uma lição muito importante que o movimento mestiço aprendeu em sua experiência no Estado do Amazonas ensina que o negrismo esquerdista prefere abrir mão de um benefício para pretos do que reconhecer os pardos como uma identidade própria e distinta dos “negros”.

Por não perceberem isto é que muitas pessoas contrárias a cotas raciais em vez de simplesmente defenderem que as cotas dos pardos e dos pretos sejam separadas, minando e inutilizando o objetivo político delas para a esquerda, perdem-se em debates secundários e caem no canto de sereia de negristas que se dizem “de direita”, enquanto a agenda racial do PT e PCdoB continua avançando e se entranhando nas instituições.

As cotas raciais para o PT, PCdoB não visam a reparação histórica, enfrentamento do racismo, nem se limitarão às instituições de ensino, mas sim visam a estimular o orgulho racial, a fragmentação em raças e a um projeto de divisão racial do Estado, inclusive no processo de eleição e de ocupação de cargos. A decisão do Tribunal Superior Eleitoral de reservar parte do fundo partidário a candidatos “negros” é mais um exemplo.

Por isto que a mestiçagem e o mestiço são tão combatidos e perigosos para o projeto de divisão racial e étnica promovido pelo negrismo esquerdista e a manutenção de sua aparência – só aparência – de antirracismo. Há um tendão de Aquiles que a maioria da direita ainda não observou.

Leão Alves é médico, ex-presidente e atual secretário geral do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro. Artigo escrito para o site Vida Destra, 9/9/2020.

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