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O racismo de Gobineau

Joseph Arthur, Conde de Gobineau, é um dos mais conhecidos teóricos do racismo. Gobineau nasceu numa família aristocrática, em Ville d’Avray, próximo a Paris, França, em 1816. Entre 1848 e 1877 serviu como diplomata no Irã, Alemanha, Grécia, Brasil e Suécia. Defendeu que a miscigenação racial levará à absorção da raça ariana e, em conseqüência, à decadência da Humanidade; e que a miscigenação racial debilita a raça. Calculou que em 270 anos os brasileiros desapareceriam. Gobineau foi um dos principais representantes do preservacionismo racial – atualmente às vezes apresentado sob disfarces do tipo “valorização da diversidade”. Por ironia da história, e para seu grande desgosto, foi enviado ao Brasil como representante do governo francês há época do II Império, onde permaneceu de abril de 1869 a maio de 1870. Fez uma grande amizade com D. Pedro II (1825-1891), cuja erudição, rara entre monarcas, facilitou a aproximação entre eles. Isso não desfez o enorme desagrado do Gobineau pelo Brasil, cuja miscigenação racial, já entre a nobreza, era quase insuportável para ele e sobre o que deixou comentários. Gobineau escreveu novelas, e livros abordando teologia, filosofia e história. Sua obra mais famosa é o Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas (1853-1855), que influenciou outros teóricos racistas, como Houston Stewart Chamberlain (1855-1927), e serviu de base para as teorias supremacistas do Nazismo – destituídas de comprovação e hoje amplamente desacreditadas no meio científico. Gobineau faleceu em 1882.

I

Simbá, o marujo, conseguindo chegar à margem do rio, avistou montanhas cobertas de bosques compactos e, no meio de um vale, uma bela e grande cidade cujos monumentos lhe pareceram numerosos e imponentes. Ele se dirige até a cidade, e qual não é sua surpresa quando percebe que a multidão de gente, que de longe parecia povoar as ruas, era, na verdade, uma multidão de macacos! Havia grandes e pequenos, novos e velhos; mas todos eram macacos extremamente feios, fazendo caretas atrozes e circulando de um lado para o outro, uns apressados, outros, não; todos lúgubres. Depois de muito andar a esmo de um lado para o outro, Simbá chegou, enfim, ao alto de um bairro, onde avistou um grande palácio que julgou ser o do Rei deste povo; e, entrando nos pátios onde os macacos que passeavam nada fizeram para prendê-lo, penetrou nos apartamentos, e depois de atravessar várias galerias teve uma agradável surpresa, ao ouvir o som de uma voz humana; e, de fato, dirigindo-se para o lado de onde vinha a voz, entrou numa sala e viu, finalmente, um homem! E este homem lia o Alcorão. De modo que não apenas encontrara um ser de sua espécie, mas um ser com quem podia se entender.

Suponho, madrinha, que com a aguda inteligência que a distingue… você adivinhou que Simbá estava no Brasil, que os macacos eram os brasileiros e que o rei era o Imperador.

A Marie Dragoumis, 21 de julho de 1869. Citado em O Inimigo Cordial do Brasil – O Conde de Gobineau no Brasil, de Georges Raeders; Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 77, 78.

 

II

Uma população toda mulata, com sangue viciado, espírito viciado e feia de meter medo…

Op. cit., p. 90.

 

III

Nenhum brasileiro é de sangue puro; as combinações dos casamentos entre brancos, indígenas e negros multiplicaram-se a tal ponto que os matizes da carnação são inúmeros, e tudo isso produziu, nas classes baixas e nas altas, uma degenerescência do mais triste aspecto.

Op. cit., p. 90.

 

IV

Já não existe nenhuma família brasileira que não tenha sangue negro e índio nas veias; o resultado são compleições raquíticas que, se nem sempre repugnantes, são sempre desagradáveis aos olhos.

A Caroline de Gobineau, 19 de abril de 1869. Op. cit., p. 90.

 

V

As melhores famílias têm cruzamentos com negros e índios. Estes produzem criaturas particularmente repugnantes, de um vermelho acobreado… A Imperatriz tem três damas de honra: uma marrom, outra chocolate-claro, e a terceira, violeta.

Op. cit., p. 90.

 

VI

Mas quem são os recém-chegados (os emigrantes em direção à América do Norte)? Representam as amostras mais variadas dessas raças da velha Europa da qual pouco se espera. Eles são o produto dos detritos de todos os tempos: irlandeses, alemães, tantas vezes mestiços, alguns franceses, igualmente misturados, italianos que superam todos. A reunião de todos estes tipos degenerados dá e dará necessariamente origem a novas desordens étnicas; desordens que nada têm de inesperado e de novo; não produzirão nenhuma combinação que ainda não se tenha realizado ou não se possa realizar em nosso continente. Não se consegue retirar nenhum elemento fecundo e, mesmo no dia em que esses produtos resultantes de séries indefinidamente combinadas entre alemães, irlandeses, italianos, franceses e anglo-saxões forem, além do mais, reunir-se, amalgamar-se no sul com o sangue composto de essência indígena, negra, espanhola e portuguesa que aí existe, não há mais como imaginar que de uma confusão tão terrível resulte outra coisa senão a justaposição incoerente dos seres mais degradados.

Essai, cap. II. Op. cit., p. 94.

 

VII

Vossa Excelência manifesta o desejo de ser informado, da maneira mais completa possível, sobre os progressos da questão da emancipação. É, de fato, um dos assuntos mais importantes ao se estudar os interesses brasileiros. Em princípio, poderia se imaginar que, de agora em diante, mais nenhum obstáculo grave opõe-se à solução desta dificuldade. O Imperador pronuncia-se nitidamente contra a escravidão; o partido liberal fala com idêntica clareza; o partido conservador nada alega em favor de um sistema tão condenado. No entanto, nada se faz para destruí-lo; e já se notou, com razão, que no discurso prenunciado por Sua Majestade brasileira, na abertura das Câmaras, não houve uma só palavra sobre este ponto tão importante, o que contrasta com as declarações dos anos anteriores.

As razões desta pausa são bastante complexas e, indo ao fundo do problema, nota-se facilmente a força que têm. Em primeiro lugar, os apuros financeiros do país e as dificuldades políticas, resultantes do estado de guerra, são motivos que explicam todo o receio em iniciar atualmente uma revolução de características sempre bastante sérias. Observa-se que, estando as forças militares brasileiras dedicadas às operações em andamento no Paraguai, seria imprudente libertar os escravos sem dispor de meios para contê-los caso seu novo estado os dispusesse a abusar da liberdade. Nota-se também que, seja qual for, o sistema de libertação resultaria necessariamente na obrigação de indenizar os proprietários de negros; se a indenização fosse total, o Estado teria de pagar o valor de cerca de 2 milhões de escravos, e as circunstâncias não se prestam a enormes desembolsos de tal natureza; se, o que é mais admissível, o modo de indenização adotado fosse menos comprometedor para as finanças imperiais, os interesses dos donos de terras estariam comprometidos na mesma medida; ora, é notório que estes andam em situação crítica e que os fazendeiros estão muito endividados: uma boa safra mal dá para que possam renovar seus créditos, e de nenhuma maneira chega a livrá-los de seus credores.

Podemos nos lembrar de ter conhecido situação análoga nas Antilhas, anteriormente à libertação de 1848; tudo que interferir na posição dos proprietários de terras será funesto, já que esta posição é inteiramente anormal. A cultura do café, a única feita em grande escala, com resultados realmente importantes, chega a produzir lucros de 40% em anos excepcionais; mas, às vezes, deve-se esperar dois ou três anos para uma colheita suficiente. No entanto, os proprietários contraem empréstimos a taxas de usura, e, convém acrescentar, a imprevidência e a falta de gosto pelo trabalho contribuem poderosamente para atenuar os lucros e exagerar os prejuízos. É certo, portanto, que a emancipação, neste momento, ou arruinaria o Estado já arruinado, ou arruinaria os particulares já fortemente comprometidos – o que equivale dizer que as duas partes seriam igual e profundamente atingidas.

Os brasileiros são sensíveis a este fato evidente, e o são talvez mais a uma outra observação que não apenas afeta seus interesses, mas fere sensivelmente seu amor-próprio. É preciso reconhecer que a maioria do que chamamos de brasileiros compõe-se de sangue mestiço, sendo mulatos e filhos de caboclos de graus distintos. Eles estão em todos os escalões sociais. O Senhor Barão de Cotegipe, atual Ministro das Relações Exteriores, é mulato; no Senado há homens desta categoria; em uma palavra, quem diz brasileiro diz, com raras exceções, homem de cor. Sem entrar no mérito das qualidades físicas ou morais destas variedades, é impossível desconhecer que elas não são laboriosas, ativas ou fecundas. As famílias mestiças destroem-se tão rapidamente que certas categorias existentes há apenas vinte anos já não mais existem, como por exemplo os mamelucos. E, por outro lado, a grande maioria dos fazendeiros, cuja desagradável situação econômica expus-lhe ainda agora, vive num estado muito próximo da barbárie, no meio de escravos, e deles não se diferenciam nem por gostos mais sofisticados, nem por tendências morais mais elevadas. O resultado disto é que o comércio, os interesses e todas as fábricas, grandes ou pequenas, estão nas mãos de estrangeiros. Eles invadem tudo, a tal ponto que muitas plantações pertencem aos portugueses, os mais numerosos e os mais ativos desses imigrantes, e estes fornecem contra a escravidão na América do Sul um dos mais fortes argumentos que se possa alegar. É o fato do trabalho dos brancos nas plantações de café. Já tive a ocasião de informar Vossa Excelência sobre o assunto.

Vendo-se assim ultrapassados pelos elementos europeus e obrigados a recorrer a eles para vender seus produtos, para construir casas, para possuir móveis, roupas e utensílios, ou ainda para fazer empréstimos, sempre renovados, a fim de atender às suas necessidades, os brasileiros sentem-se enfraquecidos, substituídos gradualmente em seu próprio país. A escravidão ainda lhes permite equilibrar-se um pouco, porque o escravo que trabalha entrega o que faz ao senhor que nada produz, mas, no dia em que não houver mais escravo e que o senhor se encontrar em presença da concorrência estrangeira já tão dona do terreno, é evidente que, mesmo que quisesse trabalhar, não teria os meios de lutar com grande proveito; e pode-se afirmar: o brasileiro jamais desejará trabalhar. Portanto, ele só pode prever sua própria extinção gradual, e daí provém o pouco empenho para obter a aplicação dos princípios liberais em relação aos negros, princípios aliás, que ele não discute de maneira nenhuma.

Quanto aos próprios escravos, eles se reproduzem muito pouco, e como o tráfico cessou definitivamente desde 1852, o número deles reduziu-se à metade desde esta época, de modo que sendo então cerca de 4 milhões, caiu para 2 milhões.

Admitindo que a emancipação fosse postergada por mais vinte anos, não haveria, por assim dizer, razão para se preocupar. Aliás, o número das alforrias parciais não deixa de ser bastante considerável. A maioria dos negros que vivem nas plantações não pode ser considerada muito infeliz. Ao contrário, os senhores parecem mais dispostos ao desleixo do que à severidade abusiva: o que é um fato é a ausência completa de qualquer educação moral entre os negros; sua depravação primitiva é absoluta, bem como a repercussão disto entre os senhores. Assim como em todo o resto da América, no Brasil a escravidão causou mais malefícios aos senhores de escravos do que aos próprios escravos.

Existe no entanto uma certa categoria de negros, fixada principalmente na Bahia e nas redondezas, que contrasta admiravelmente com a massa dos outros indivíduos da mesma raça. São os Minas, vindos dos arredores do Gabão. Esses escravos são de estatura mais alta e de compleições mais robustas do que seus companheiros de servidão. São tidos também como mais inteligentes, mas ao mesmo tempo mais obstinados, pouco obedientes e capazes de resistência: a polícia teve algumas oportunidades de vigiá-los de perto. Formam entre eles sociedades de amparo e possuem caixas comuns. Chegam a libertar-se com suas economias, fato raro entre os outros escravos; e, melhor ainda, compram anualmente, com os recursos de que acabo de falar, um certo número de seus compatriotas. Freqüentemente os enviam de volta para a África, mas diz-se que, há alguns anos, à medida que o número dos Minas libertos aumentou no Império, as partidas são menos freqüentes: os alforriados ficam na Bahia ou vêm para o Rio, onde começam a exercer uma profissão qualquer com a qual conseguem, geralmente, fazer uma pequena fortuna.

A maior parte desses Minas, se não todos, são Cristãos na aparência, e Muçulmanos de fato; mas como esta religião não seria tolerada no Brasil, eles disfarçam, e a maioria é batizada com nomes extraídos do calendário. Apesar desta fachada, pude verificar que devem conservar fielmente as opiniões trazidas da África, e as transmitem com muito zelo, já que estudam árabe de maneira bastante completa para compreender, pelo menos por alto, o Alcorão. Este livro é encontrado no Rio nos livreiros franceses Fauchon e Dupont, que mandam buscar da Europa exemplares e os vendem ao preço de 15 a 25 mil-réis, ou seja, 36 a 40 francos. Embora muito pobres, os escravos mostram-se dispostos aos maiores sacrifícios para possuírem o volume. Para isso, contraem dívidas, levando às vezes um ano para pagar ao vendedor. Cerca de uma centena de exemplares do Alcorão é vendida anualmente, acompanhada de algumas gramáticas árabes redigidas em francês. É sem dúvida curioso ver uma população africana recorrer a uma língua européia para chegar a conhecer seu livro sagrado.

Creio que jamais se observou, até agora, a existência de uma colônia muçulmana na América; e embora não seja necessário consigná-la neste despacho, espero que Vossa Excelência queira perdoar-me esta digressão, em razão da particularidade que releva. Aliás, isto explica a atitude sobremodo enérgica dos negros Minas.

Resumindo, creio poder concluir que a questão da escravidão no Brasil não tem atualmente solução à vista; que, se esta solução for adiada por muito tempo, virá naturalmente pela extinção da classe servil; que a população brasileira propriamente dita, na realidade mestiça ou pelo menos tão aparentada aos negros como aos brancos, quando considerada em seu conjunto, está igualmente fadada a desaparecer, seja por extinção, seja pela absorção nas famílias portuguesas que aqui se vêm estabelecer; e que se pode prever dentro de um tempo determinado a supremacia absoluta de uma espécie de nação nova, cuja base será formada pelos portugueses de Açores e do sul do reino, mais ou menos mesclada a alemães, franceses e italianos.

 

Carta de Gobineau respondendo ao Ministro das Relações Exteriores da França sobre a questão da abolição da escravatura, no Brasil. MRE, Paris, Question de l’Esclavage au Brésil, Rapport de Gobineau, Relatório n.º 5, 22 de setembro de 1867. Op. cit., p. 117-124.

 

VIII

A América do Sul, corrompida em seu sangue crioulo, não dispõe de qualquer meio, doravante, para deter o declínio dos mestiços de todas as variedades e de todas as classes. Sua decadência é irremediável.

Op. cit., p. 163.

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