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Bélgica pede desculpas por rapto de crianças mestiças com colaboração do clero branco da Igreja Católica

O primeiro-ministro da Bélgica, Charles Michel, do partido Movimento Reformador.

O primeiro-ministro da Bélgica, Charles Michel, desculpou-se formalmente pelo papel do país no sequestro de milhares de crianças mestiças de suas ex-colônias, que hoje são a República Democrática do Congo, Ruanda e Burundi, entre 1959 e 1962. A ação contra mestiços ocorreu com a colaboração do clero branco da Igreja Católica.

Na quinta-feira (4), o primeiro-ministro, que é do partido Movimento Reformador, liberal, afirmou no Parlamento da Bélgica: 

“Em nome do governo federal, peço desculpas às pessoas mestiças com raízes na colonização belga e às suas famílias pela injustiça e pelo sofrimento que passaram. Também desejo expressar toda a nossa compaixão pelas mães africanas cujos filhos foram arrancados deles”.

Legislação contra casamentos inter-raciais não impediu o nascimento de mestiços

O seqüestro de crianças mestiças nas antigas colônias começou por volta da virada do século XX.

A Bélgica criou uma política de “segregação racial durante o período colonial, em que os casamentos entre brancos e negros eram ilegais… mas muitas relações aconteceram entre homens brancos e mulheres africanas”, afirmou Assumani Budagwa, autor de Noirs-Blancs, Métis – La Belgique e a segregação dos Métis du Congo belge et Ruanda-Urundi (1908-1960) (Preto-Branco, Metis – Bélgica e a segregação de Metis no Congo Belga e Ruanda-Urundi).

Muitos homens belgas quando estavam em missão em uma aldeia por alguns dias ou semanas freqüentemente pediam ao chefe da aldeia companhia feminina.

Outras vezes, os belgas tinham uma companheira feminina como parte de sua comitiva que viajava com eles.

O medo de que mestiços se voltassem contra brancos e pretos

A maioria dessas crianças cresceu na companhia de suas mães na aldeia. Mas à medida que mais e mais dessas crianças se tornaram visíveis, a Bélgica sentiu que tinha que fazer alguma coisa.

Segundo François Milliex, o diretor da Associação Belga de Mestiços, que foi trazido para a Bélgica sob a mesma política:

“Essas crianças representaram um problema. Para minimizar o problema, eles seqüestraram essas crianças a partir dos dois anos de idade e as colocaram em internatos que foram isolados do mundo europeu e africano, uma espécie de casulo para garantir que não tivessem relações com ninguém”.

Ele acrescenta que os belgas temiam que, uma vez que essas crianças atingissem a maioridade, tentassem incitar a revolta – como aconteceu no Canadá, na Rebelião do Red River, de 1869-1870.

Eles também temiam que eles exigissem certos privilégios do governo belga como europeus.

“A presença dessas crianças mestiças nas aldeias também foi vista como um golpe para a raça branca e por isso decidiram manter essas crianças longe da vista dos nativos”, afirma Budagwa.

Em alguns casos, as crianças foram escondidas e criadas entre a família, acrescenta Milliex.

Religiosos católicos brancos raptores

No entanto, a maioria dessas crianças foi levada e criada em instituições católicas isoladas ou orfanatos por padres ou freiras longe da família e muitas vezes longe de seu país de origem, pois a maioria dessas escolas ficava no que era então Ruanda-Urundi (agora Ruanada e Burundi).

Uma vez que eles atingiram a maioridade, eles se casaram com outros mestiços, explica Budagwa.

Levando para a Bélgica

Quando as colônias começaram a buscar a independência, o convento Save em Ruanda – Save foi uma das primeiras missões católicas em Ruanda – estava preocupado com o destino das crianças após a independência.

“O governo belga e os missionários acreditavam que essas crianças seriam submetidas a grandes problemas pela população local se permanecessem nesses países independentes. E assim, eles trouxeram cerca de mil crianças (…) para serem adotadas, criadas em internatos ou para morar com famílias adotivas” na Bélgica, afirma Milliex.

Muitas das mães foram contatadas e teriam sido forçadas a assinar uma carta permitindo que seus filhos fossem levados para a Bélgica.

Muitos dos que se recusaram, diz Budagwa, foram ameaçados de pagar as mensalidades escolares de seus filhos. Em outros casos, as mães não foram contatadas.

Belgas se segunda classe

Inicialmente todas as crianças do mestiças receberam a nacionalidade belga, mas esta foi posteriormente revogada.

Os mestiços interessados em recomprar sua nacionalidade tinham que buscar junto a autoridades. Aqueles que não podiam pagar permaneceram sem cidadania.

Igreja Católica pede desculpas na Bélgica, mas mantém política antimestiça no Brasil

Em 2017, a Igreja Católica pediu desculpas por seu papel no seqüestro e segregação das crianças mestiças e proibição do casamento mestiço.

O pedido de desculpas, porém, não mudou a ação do clero branco católico contra mestiços e casamentos inter-raciais em outros países e de outras formas.

No Brasil, p. ex., a Igreja Católica – comandada em sua maioria por religiosos brancos -, através de organizações como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Conselho Indigenista Missionário (CIMI), apoia políticas de criação de territórios exclusivos para índios – a fim de evitar mestiçagem – e limpeza étnica de populações mestiças.

A Igreja Católica também é uma das principais apoiadoras da imposição aos mestiços da classificação como negros.

Este pedido de desculpas da Bélgica é a primeira vez que o país assume responsabilidade por atrocidades cometidas durante o seu domínio colonial de mais de 80 anos na África.

O governo diz que fornecerá assistência àqueles que precisarem e, em última análise, abrirá os arquivos para todos, para que possam rastrear sua linhagem familiar.

Reescrito de RFI com acréscimos.

Posted in Mestiçofobia | Desmestiçagem.


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