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Clarice Lispector e a cor preta

QUASE DE VERDADE

De pensamento em pensamento, todos cheios de raiva, a figueira chegou a uma infeliz solução: ía fazer uma coisa que você não advinha.

Sabe o quê? Essa danada de figueira entrou em contato com uma nuvem preta que era bruxa. E pediu:

– Bruxa, bruxinha, faça com que os ovos sejam meus, mesmo que não cocorique como Ovídio! Quero vender esses ovos e ganhar muito dinheiro!

(…).

A bruxa má se chamava Oxélia.

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A barulheira deixava a figueira meio surda. Bem que ela quis consultar a bruxa sobre o que deveria fazer. Mas Oxélia estava ocupada com outro serviço, serviço que era de maldade também.

A figueira estava meio endoidecida e implorou auxílio especial, como consulta de médico (só que médico é bom) e a feiticeira Oxélia, cada vez mais preta, concordou em dar resposta.

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Mas a fome veio. E cadê o que comer? Pois bem. Ovídio e Odissea se lembraram de uma bruxa muito da boa chamada Oxalá – o ‘O’ do ovo, ‘xalá’ por vaidade.

(…).

Ovídio e Odissea ficaram contentes porque sabiam que Oxalá sempre cumpria o que prometia. Então pediram mais:

– Oxalazinha, vê se da um jeito para fazer com que a nuvem preta, a Oxelia, deixe de ser ruim!

Oxalá sorriu e disse:

– Pois bem: ela não vai mais ser perigosa e daqui a umas horas ela vai chover. E chover em cima da figueira.

(…).

Enquanto isso, Odissea disse a Ovídio:

– Já que estamos livres e felizes, vamos perdoar a figueira que está tão triste? Acho que ela se arrependeu. Vamos pedir a Oxalá que cuide dela?

– Falou e disse, respondeu Ovídio.

Olharam para o céu e viram Oxalá.

Ela estava linda no céu azul-claro: branca e dourada e brilhosa pelo Sol que batia nela.

De Quase de Verdade, São Paulo: Siciliano, 1993. O livro não possui numeração nas páginas e o itálico segue o original.

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A HORA DA ESTRELA

O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram como dois nordestinos, bichos da mesma espécie que se farejam. (p. 43)

Em A Hora da Estrela, Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 43.

Embaixatriz Clarice Lispector (1925-1977), escritora ucraniana naturalizada brasileira.

NOTA. Decidimos publicar esta antologia porque entendemos que o conhecimento das idéias e daqueles que as elaboram são mais úteis à sua contestação e à mobilização contra elas do que o seu desconhecimento que deixa as vítimas e alvos do racismo e da segregação desguarnecidas e expostas a inimigos discretos ou secretos. Elas também revelam as profundas raízes do racismo na sociedade e na história humana.

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