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Neymar é negro? O Brasil e a capciosa relativização da raça – Leão Alves

Neymar em um jogo da Seleção brasileira contra a da África do Sul, em 2016.

Milhares de afrodescendentes têm sofrido sistemática limpeza étnica no Brasil por ação de brancos esquerdistas, o negrismo, porém, está mais preocupado em levar aos estrangeiros questões como: “Neymar é preto?”

Conhecer a realidade de um país estrangeiro traz certas dificuldades, especialmente quando se faz isto somente como leitor. Informações fundamentais podem não ficar explícitas, serem omitidas ou o autor apresentar uma visão compromissada que sacrifica a realidade. O artigo “Is Neymar Black? Brazil and the Painful Relativity of Race”, de Cleuci de Oliveira, publicado no The New York Times serve como exemplo.

Quando se trata de questões étnicas e raciais do Brasil, alguns fatos precisam ser conhecidos.

Quando em 1500 navios repletos de brancos portugueses chegaram à América, o prenúncio da mestiçagem com os nativos foi imediato: o escrivão Pero Vaz de Caminha em sua carta ao rei de Portugal informando sobre a chegada, destaca a aparência de uma índia,

“E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem-feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela.”

Outro fator favoreceu a mestiçagem. Houve relativamente pouca imigração de mulheres brancas para o Brasil, especialmente no séc. XVI, e a regra era os brancos portugueses unirem-se com mulheres índias, inclusive por casamento cristão, dando origem aos primeiros nativos mestiços do país, os caboclos.

Durante o período colonial, estes casamentos foram incentivados tanto pelo governo português quando por muitos líderes índios. É dessa mestiçagem que foi sendo formada a identidade brasileira como distinta da portuguesa.

A imagem de um Brasil formado basicamente por brancos, pretos e mulatos foi promovida especialmente a partir do início do séc. XX; a mestiçagem entre índios e brancos, porém, foi anterior e mais ampla, atingindo todo o território nacional, à qual se somou a mestiçagem com pretos africanos, de modo que o mulato brasileiro, salvo alguma rara exceção, também descende de índios.

Desta imagem de Brasil mulato os negristas – grande parte deles políticos e acadêmicos esquerdistas brancos descendentes de imigrantes –, buscam firmar a imagem de um Brasil preto e branco, apagando o povo mestiço. Mixed race e multiracial são mais frequentemente usados para se referirem a mestiços em países de língua inglesa.

Pretos africanos só aportaram no Brasil por volta de 1549. Isto tem uma explicação muito simples: a importação de escravos africanos só se tornou interessante para os colonizadores quando já haviam estabelecido uma economia grande o suficiente para empregá-los.

Assim, os mestiços cafuzos (mestiços de preto e índio) e os mulatos foram gerados depois dos mestiços caboclos e predominantemente em localidades onde aportavam navios negreiros no Nordeste e Sudeste do país.

Atualmente a maioria dos mestiços descende das três raças fundadoras do povo brasileiro.

Quatro Estados do Brasil – Amazonas, Mato Grosso, Paraíba e Roraima – reconhecem o Povo Mestiço como uma etnia nativa e o Dia do Mestiço é comemorado no dia 27 de junho, inclusive com feriados, em algumas cidades.

Segundo dados do Censo oficial de 2010, mais de 58% da população autodeclarada de cor preta do país vivem em apenas 4 Estados – Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais –, que formam uma faixa contínua meio a 23 outras unidades da Federação; todos os quatro situados na face Leste do Brasil, voltada para o Oceano Atlântico e a África. À medida que se dirige ao Oeste, a presença de autodeclarados pretos diminui. Esta população de cor preta é, também, quase em sua totalidade miscigenada, ou seja, é de mestiços de cor preta não de pessoas de raça preta.

Mestiço não é uma raça, é uma mistura de raças; pode possuir identidade étnica, não necessariamente um padrão de aparência.

Como um mestiço se define por mistura de origens, quando um brasileiro identifica outro brasileiro como mulato ou preto está quase sempre se referindo a aparência não a uma raça.

Por que, então, esta imagem de um Brasil dividido entre raças branca e preta tem sido propagandeada atualmente quando a realidade é de um país fundamentalmente formado por mestiços descendentes de índios, brancos e pretos?

Um dos motivos está no fato da maioria dos grandes centros políticos, econômicos, acadêmicos e da imprensa do país localizar-se em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde também se encontram os principais núcleos dos movimentos negros do país, em regra politicamente de esquerda, multiculturalistas, com agendas em sintonia com partidos, governos e ONGs do Brasil e estrangeiras. Estes movimentos têm uma bandeira supremacista e imperialista africana e o objetivo de fazer com que mestiços sejam classificados como negros (isto, negros, não pretos), inclusive os que não descendam de pretos.

E para entender como isto se dá – e como é camuflado na mídia em língua inglesa dirigida a leitores estrangeiros – é também fundamental conhecer a classificação racial nos censos nacionais oficiais brasileiros.

O censo brasileiro atualmente adota as categorias de ‘cor/raça’ seguintes: ‘indígena’, ‘branca’, ‘parda’, ‘preta’ e ‘amarela’. O censo brasileiro não adota e nunca adotou, desde o primeiro censo, de 1872, a categoria ‘negra’, mas ‘preta’ e nunca pretos e mulatos ou cafuzos foram contados juntos nos censos brasileiros.

Um possível motivo para isto se dá pelo fato do termo negro significar também escravo e o primeiro censo ter sido realizado antes da abolição da escravidão. Os índios escravizados no Brasil eram denominados ‘negros da terra’ e os comerciantes e navios que transportavam escravos eram denominados ‘negreiros’, de modo que o termo ‘negra’ num censo deixaria a dúvida se o entrevistador perguntava sobre raça ou sobre condição de escravo.

Negro e preto, porém, no Brasil passaram a ser termos sinônimos e nenhum brasileiro quando escuta alguém se referir a um negro ou a um preto pensará em alguém de pele clara, salvo algum negrista.

Para os mestiços (caboclos, cafuzos, mulatos ou outros) o censo brasileiro adota a categoria ‘parda’, que esteve presente em todos os censos brasileiros nacionais, exceto no de 1891, quando foi substituído por ‘mestiça’.

Os negristas têm pressionado para que os censos brasileiros façam o que racistas conseguiram fazer nos EUA em relação a blacks e mulattos: excluir as opções ‘parda’ e ‘preta’ e substituí-las por ‘negra’. Ainda não conseguiram, mas criaram uma lei, o Estatuto da Igualdade Racial, sob os aplausos de instituições de direitos humanos do país e da ONU, classificando pretos e pardos como negros. Pronto, a partir daí a propaganda negrista passou a dizer que apenas estava dizendo o que a lei já dizia. A sutileza é a alma do negócio.

E aqui há outra: embora haja na língua inglesa a palavra ‘Negro’, em seus artigos, a mídia negrista traduz a palavra ‘negro’ do português para ‘Black’ e não para ‘Negro’.

O título do artigo, “Is Neymar Black?”, assim, traz um pergunta que não seria feita sequer pelos negristas no Brasil.

Se o fizessem, aqui eles perguntariam – só para título de artigo –, “Is Neymar Negro?”

Não fariam isto, destaque-se, por uma simples opção por um sinônimo de ‘preto’, mas pelo objetivo de apagar a identidade mestiça, inclusive dos mestiços caboclos, e acoplar todos os mestiços a uma unidade negra.

Fariam isto só para título de artigo, pois não consultam os mestiços se eles se identificam ou não como negros; esta é uma pergunta e resposta que os negristas reservam para si mesmos, pois negam que os mestiços existam como identidade própria – e não se pergunta algo a quem não existe, exceto para embelezar discurso.

Também é fundamental saber que a mestiçagem no Brasil entre as três raças foi tão ampla no período colonial que possivelmente todos os descendentes da população branca colonizadora compõem atualmente a população miscigenada, o mesmo podendo ser dito sobre a população descendente dos pretos trazidos pelos traficantes de escravos e dos índios.

A população branca atual do país descende basicamente dos imigrantes que chegaram ao país após sua independência, em 1822, e que foram habitar principalmente as regiões Sul e Sudeste do país. Têm hoje grande poder político, inclusive nos partidos de esquerda, cujos intelectuais brancos foram fundamentais na idealização do negrismo.

O negrismo, porém, apresenta-se como um crítico do poder branco no país, uma crítica dirigida a brancos do passado e aos de direita do presente.

A imposição da identidade negra aos mestiços implantadas no Brasil foi idealizada e transformada em lei por políticos brancos, sem os quais não teria sido possível sua aprovação. Negligência, intimidações veladas e manobras parlamentares que evitaram votação em plenário fizeram parte dessa legalização. Este tipo de projeto é daqueles que muitos parlamentarem acreditam que, se não dão voto, opor-se a ele pode fazer com que sofram retaliação, especialmente durante os governos de Lula e Dilma.

O apoio branco esquerdista tem raízes na imigração, iniciada no séc. XIX. Embora os imigrantes brancos e seus descendentes tenham-se integrado em sua absoluta maioria à nacionalidade brasileira, inclusive pela mestiçagem, havia os que eram avessos à integração e que, com a Constituição Federal atual, de 1988, encontraram nas políticas de eliminação étnica dos mestiços um espaço para também promover a própria preservação racial e étnica em relação aos demais brasileiros, especialmente os não brancos.

Segundo a autora do artigo,

“Como o Brasil nunca teve um sistema de apartheid como a África do Sul, ou proibição de casamentos com mistura de raça como os Estados Unidos, dizia o argumento, um espírito de relações calorosas floresceu através de divisões raciais”.*

O Brasil não teve um Sistema idêntico ao apartheid sul-africano, mas a legislação cravada na Constituição atual do país tem semelhanças com aquele.

O antropólogo Darcy Ribeiro, indigenista e de esquerda, que participou como parlamentar na elaboração e aprovação da Constituição atual, elogiava o apartheid como uma ideologia que valorizava a diversidade,

“Quem afasta o alterno e o põe à distância maior possível, admite que ele conserve, lá longe, sua identidade, continuando a ser ele mesmo. Em conseqüência, induz à profunda solidariedade interna do grupo discriminado, o que o capacita a lutar claramente por seus direitos sem admitir paternalismos.”

Um argumento também adotado por Hendrik Verwoerd, o idealizador do apartheid,

“Não há política de opressão aqui, mas de criar uma situação que nunca existiu para os bantos, isto é, que, levando em consideração as suas línguas, tradições, história e diferentes comunidades nacionais, eles possam passar por um desenvolvimento deles próprios. Essa oportunidade surge para eles logo que tal divisão é posta entre eles e os europeus dos quais não necessitam ser os imitadores nem capangas destes.”

Além de territórios exclusivos para índios – com limpeza étnica de mestiços e outros não índios –, foram implantados também territórios para negros no Brasil e o Partido dos Trabalhadores chegou a apresentar um projeto de criação de “territórios culturais” para descendentes de imigrantes fundamentados no princípio da preservação da identidade racial.

“Não importa que o Brasil tenha sido o último país das Américas a abolir a escravidão em 1888; ou que, após a abolição, a classe dominante organizou uma campanha para branquear a população majoritariamente preta, subsidiando totalmente a imigração de mais de quatro milhões de europeus brancos, dando-lhes terras livres e obrigando os brasileiros a lidar com eles”,** afirma a articulista.

Os censos oficiais não confirmam isto. No Brasil, segundo o censo de 1872, havia 38,3% de pardos, 38,1% de brancos, 19,7% de pretos e 3,9% de indígenas. Também a política de incentivo à imigração branca precedeu a abolição da escravidão, tendo sido iniciada no início do séc. XIX, de modo que o percentual de brancos passa a superar a de pardos nos censos seguintes, voltando os pardos a crescer percentualmente nos registros do censo só a partir de 1950. No censo de 2010, brancos compunham 47,7% da população,  pardos 43,1% e pretos 7,6%.

Segundo o último censo, os brancos voltaram a ser minoria. Registra a articulista que os casamentos mistos, porém, são numericamente insignificantes entre os brancos mais ricos.

Exatamente após esta redução percentual de brancos, foi modificada a legislação brasileira passando a haver o incentivo a uma nova onda imigratória, alguns representantes governamentais vendo esta mudança como uma grande oportunidade para trazer brancos europeus sob o argumento de ganhar “mão de obra qualificada”, o mesmo argumento usando no séc. XIX.

Significativamente, tem sido o movimento mestiço que tem se manifestado contra; os negristas preferem atacar o passado.

Classificar todos os pardos como negros, porém, pode ser inconveniente para os negristas em algumas situações. A reserva de vagas nas universidades e empregos públicos visam também a ocupar estes espaços ideologicamente.

“E os mecanismos implementados para conter a fraude potencial, predominantemente na forma de entrevistas pessoais com especialistas em anti-racismo indicados pelo governo, mostraram-se incômodos na melhor das hipóteses e contraproducentes na pior das hipóteses”,*** afirma a jornalista.

Os especialistas em “anti-racismo” são em regra negristas e a própria entrevista mostra algo que um leitor estrangeiro deve conhecer. Como dito acima, os censos brasileiros nunca adotaram o termo negro. Os negristas, então, conseguiram aprovar uma lei, o Estatuto da Igualdade Racial, que classifica como negros os autodeclarados pardos e pretos nos termos do censo brasileiro.

Ocorre que o censo brasileiro só adota autodeclaração. Os negristas, então, ignoraram este detalhe e criaram leis para julgar quem é negro ou não.

Em resumo, para eles todo pardo deve ser tratado sistematicamente como negro, exceto se quiser concorrer a uma cota racial. Esse pardo que for rejeitado como negro, porém, não pode ter identidade própria, devendo ficar num limbo e ser usado conforme os interesses dos negristas.

O negrismo está ligado ao globalismo. O objetivo é globalista, eliminar a soberania nacional eliminando a identidade nacional. Mestiçagem unifica e os globalistas querem fragmentar internamente as nações. O mestiço é a unificação.

O negrismo é só mais um exemplo de como com muita propaganda e apoio econômico uma afirmação sem fundamento pode ganhar ares de verdade – só ares.

Leão Alves é médico e ex-presidente do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro.

*“Because Brazil never had an apartheid system like South Africa, or a ban on mixed-race marriages like America, went the argument, a spirit of warm relations blossomed across racial divides”.

**“Never mind that Brazil was the last country in the Americas to abolish slavery in 1888; or that after abolition, the ruling class mounted a campaign to whiten the majority-black population, by fully subsidizing the immigration of over four million white Europeans, giving them free land, and compelling Brazilians to take up with them”.

***“And the mechanisms put in place to curb potential fraud, predominantly in the form of in-person interviews with government-appointed anti-racism experts, have proved cumbersome at best and counterproductive at worst”.

Posted in Artigos, Leão Alves, Português.


7 Responses

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  1. Ronaldo says

    não podemos nos calar! o Brasil tem essa equação racial pra oferecer ao mundo, dando um impulso no processo civilizatório. enquanto nossa sociologia continuar importando cegamente as analises e resoluções norte-americanas, continuaremos fomentando um luta de raças num território em que todo mundo é mestiço!

  2. Anônimo says

    Nao tem nenhum advogado no Brasil para impetrar um processo na justiça em favor dos pardos ?e declarar inconstitucional o estatuto da igualdade racial? e na política não tem nenhum político ou partido?

  3. Anônimo says

    A quem nos pardos vamos recorrer? nenhum partido se opos ao pt na hora de eliminar os pardos no cenario nacional, nao existe justica, o stf chancelou o genocidio pardo ao aprovar o estatuto do movimento negro.

  4. Anônimo says

    Os pardos estao abandonados a propria sorte, brancos ricos apoiando movimentos negros para cometer racismo contra os pardos. Nao temos dinheiro, nem apoio da midia comprada. Estao todos cometendo genocidio contra os pardos seja onu, direitos humanos, lei e politicos. Os pardos pedem socorro.

  5. Anônimo says

    Vários alunos pardos sendo expulsos das faculdades, servidores exonerados, pardos respondendo a processos de improbidade administrativa. Tá uma sangria isso aí. Adotam critérios retroativos e subjetivos. Não tem condição e lógica uma situação dessas. Protestem na TV. A população precisa saber dessas injustiças!!!

  6. Anônimo says

    Pardos pedem socorro. Algo precisa ser feito. Muitos estudantes e servidores pardos estão em sérios riscos. Algo precisa ser feito urgente! É vilipendiar a honra e integridade das pessoas. Estamos no Século XXI!!!

  7. Joaquim says

    Maravilhoso artigo



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