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A mulata – Fernanda Huguenin

Vai chegando o carnaval e a mulata globeleza começa a aparecer diariamente nos intervalos da programação. Uma série de concursos é promovida para a escolha de passistas das escolas de samba e, no Saara, em pleno centro do Rio de Janeiro, todo ano é eleita a garota da laje. O que essas personagens podem nos revelar da visão do feminino no Brasil? E o que pode nos ensinar sobre preconceitos raciais e sobre misoginia?

A mulata é um exemplo clássico de transformação de uma categoria racial em categoria ocupacional. Ela é um subtipo específico dos variados espectros de mestiçagem: é a mistura do branco com o negro. Deve ter o corpo volumoso e num formato de curvas tipo violão, e necessariamente saber sambar. Além disso, precisa se apresentar de um jeito que seduza o público, que o faça desejá-la, seja sexualmente, seja como um padrão de beleza. Mas ela não pode ser vulgar. Pelo contrário, precisa demonstrar todo o seu profissionalismo e se desvincular de qualquer associação com a prostituta.  A mulata deve ser simbolicamente um tipo ideal da brasileira.

Até aqui, tudo bem. As mulatas são de fato maravilhosas. E qual é o problema então? É que o samba no pé da mulata é atribuído à sua raça e isso é feito, como no inferno, com a melhor das intenções. É como se sambar fosse um dom natural sem qualquer necessidade de aprendizado. E como determinadas ideologias dominantes estão disseminadas no senso comum, as próprias mulatas reproduzem esse argumento. Mas o que tem demais se a capacidade de sambar é considerada um dom natural?

Aí entra a pedagogia do racismo. É o mesmo que dizer que o negro nasceu pra jogar futebol ou tocar instrumentos de percussão. Se ele nasce com esses dons, isso pode significar que ele não terá talento para outras coisas. Não poderá ser campeão de natação, nem um grande pianista. Ou tudo o mais que quiser. Essa atribuição racial a determinadas ocupações forjam, sob uma roupagem positiva, um imenso racismo. Se a mulata já nasce sambando, pra muita gente isso pode significar que ela não serve pra dançar balé. Esse discurso nega a plasticidade humana e, sobretudo, as construções históricas (e não naturais) de determinados papéis.

Aliás, lembrando um samba antigo que dizia: “o seu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor. Mas como cor não pega, mulata eu quero é seu amor”, penso no quanto a fabricação social de certos tipos femininos é feita a partir de uma concepção misógina, isto é, com desprezo à mulher. Isso porque elas são tornadas objetos e não sujeitos e, como se sabe, objetos não têm agência, nem ação. São feitos para serem consumidos. No samba, a mulata serve para o “amor”, ou seja, para o sexo e não para o casamento, porque a cor não “pega” como se pegam doenças. Mulheres uvas e melancias existem para ser simbólica, e talvez literalmente, comidas. Essa coisificação da mulher é a constatação mais conspícua da persistência da dominação masculina.

Ao refletir sobre a construção social da mulata, lembro-me de uma Simone de Beauvoir (1908-1986) que dizia em seu livro O segundo sexo: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Gostaria de estender a formulação dizendo que “nenhuma mulher nasce mulata, mas torna-se mulata”. É uma pedagogia e não a natureza que a constrói, caso contrário, mesmo sem o menor repertório, tendo avô negro e avó branca, eu bem que poderia me candidatar num desses concursos.

De Folha da Manhã Online.

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One Response

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  1. Sabryna Tenório says

    Ótimo texto. Muito bom mesmo o texto.



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