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O legado de um cabra da peste

Nathália Bormann

Relançamento do “Dicionário do Palavrão” marca os 90 anos do folclorista Mário Souto Maior

Mônica Melo

A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) sedia, hoje, o relançamento de um dos livros mais representativos da produção do folclorista pernambucano Mário Souto Maior: “Dicionário do Palavrão e termos afins” (Editora Leitura). A reedição da obra, que conta com mais de 3 mil vocábulos e tem prefácio assinado pelo sociólogo e amigo Gilberto Freyre, marca os 90 anos de nascimento do “Dr. Souto”, advogado que nos legou obra de referência para o conhecimento da cultura popular nordestina. Estudiosos repassam, aqui, as principais marcas da produção do autor de “Como nasce um cabra da peste”, que faleceu em 2001, vítima de câncer.

Oriundo de Bom Jardim, no agreste pernambucano, Souto Maior, que atuava como promotor, sedimentou, tardiamente, sua vocação para o estudo do folclore. Somente aos 50 anos, publicou o primeiro livro, “Como nasce um cabra da peste”, referente a crenças em torno do nascimento do nordestino. “Souto Maior se distinguia por uma capacidade de trabalho extraordinária. Depois dos 50 anos, debruçou-se sobre a área, mas passou a viver o folclore 24 horas”, comenta a pesquisadora da Fundaj Fátima Quintas, que trabalhou com o estudioso na instituição durante 20 anos. Fátima salienta que Souto Maior concebia o folclore sob uma ótica universal: “Ele entendia a regionalização como a voz do povo na tentativa de compreender o mundo. Fugia da ideia de folclore como algo exótico. Seria um regionalismo à moda freyreana”.

Já a professora Danielle Rocha Pitta, do departamento de Antropologia e Museologia da UFPE, destaca a variedade temática das publicações de Souto Maior sobre as expressões da cultura nordestina. Com humor e em linguagem acessível, o estudioso explorou, nos 70 livros editados, aspectos da vida cotidiana do nordestino, a culinária, religião, medicina popular, questões de gênero e gerações. “Souto Maior foi expoente da cultura nordestina, a falar sobre morte e sexo, que encerram emoções fundamentais do ser humano. A maneira como o povo expressa as emoções para essas duas dimensões da vida retrata o sistema simbólico criado por essa cultura. Ao levantar expressões, Souto Maior dá conta de uma maneira de viver, de uma filosofia”, defende Rocha Pitta.

O folclorista adotava um método curioso para o levantamento dessas expressões. Fátima conta que ele costumava colocar em caixas de sapatos, divididas por temas, anotações com comentários do povo. O preenchimento das caixas sinalizava que a temática poderia ser materializada em livro. “Folclore é sabedoria popular, que é o elemento a sustentar a cultura. Os dados reunidos não são torcidos por Souto Maior para sustentar teoria sociológica ou antropológica. São trazidos ao conhecimento pelos livros dele tal como são vividos”, pondera Rocha Pitta.

Sobre a re-edição do Dicionário, a professora salienta que a singularidade da obra reside no fato de que o palavrão diz muito sobre o que uma cultura deprecia. O título, realizado por sugestão de Gilberto Freyre, esperou, inclusive, cinco anos para ser publicado por ter sido censurado durante o regime militar. Entre as contribuições de Souto Maior, destaca-se, ainda, a transmissão das tradições populares para as crianças. Em geral, nos títulos voltados a este público, ele apresenta personalidades nordestinas, como Capiba, Jorge Amado e Gilberto Freyre. É dele, ainda, o “Dicionário de folclore para estudantes”.

ACERVO

Coordenadora do Centro de Estudos Folclóricos Mário Souto Maior, que funciona na unidade de Apipucos da Fundaj, a pesquisadora Rúbia Lóssio destaca a iniciativa de “Dr.Souto” em organizar e publicar micromonografias nas quais diversos autores dissertam sobre cultura popular. Além desses pequenos textos, o acervo do Centro é formado pelos títulos de Souto Maior, como “Dicionário folclórico da Cachaça” e “Nomes próprios pouco comuns”, e objetos pessoais do autor. Para agendar visitação, os interessados podem ligar 3073 6508.

De Folha de Pernambuco.

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