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Lembranças do “Anjo da Morte”

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Em meados da década de 1980 veio à tona a notícia da possibilidade do carrasco nazista Josef Mengele, o “Anjo da Morte”, como ficou conhecido, nos campos de concentração da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, ter morado em Mamborê. O fato nunca foi realmente comprovado, mas se confunde com a história de um médico, ou suposto médico, que passou pela cidade e deixou marcas que o tempo ainda não conseguiu apagar.

Relatos de moradores mais antigos dão conta de que em 1956 chegou na cidade um alemão chamado Josef Kanat. Ele se dizia médico e em sua passagem pelo município agiu como um verdadeiro carrasco, fazendo cirurgias sem anestesias, partos desastrosos e até amarrando os pacientes.

Um dos casos mais lembrado no município envolve a família Fantin. Íris Fantin, que morreu no ano passado, precisou de atendimento para o parto de uma filha. Isso em novembro de 1956. O suposto médico foi chamado e agiu com tanta violência que a filha nasceu com um corte em uma das orelhas.

Hoje com 53 anos, Zilda Catarina Fantin, ainda tem a marca do parto. Ela recorda que durante a infância sempre usou cabelos longos para esconder a orelha. “Eu sabia que o corte [na orelha] foi no parto. Minha mãe contou o que havia acontecido eu tinha vergonha de mostrar”, pondera.

Porém, por volta de 1985 surgiu a história de que Josef Mengele poderia ter passado pelo município e que a mãe dela teria sido vítima dele. “Daí não teve como esconder a orelha. Por onde eu andava as pessoas queriam ver o corte. Cortei o cabelo bem curtinho e não escondi mais. As pessoas me chamavam de a filha de Menguele. Alguns brincam até hoje”, diz Zilda.

Na opinião dela o parto foi mesmo realizado pelo nazista. Zilda diz que viu fotos do suposto médico e que ele é bastante parecido com o nazista. Ela revela que a mãe contava a história do parto e que sofreu muito. “Ela contava que o tal médico usou fórceps – ferros em forma de colher – para me retirar. Sem nenhum tipo de anestesia as ferramentas foram introduzidas no corpo dela.” “Ela contava ainda que meu pai estava do lado e que ameaçava o tal médico de morte se algo desse errado. Mas o médico não se amedrontava e inclusive mostra para meu pai que também estava armado. O parto foi realizado com um revolver na cinta.” “Estou viva porque eu tinha de viver”, comenta ainda. Segundo ela, a mãe teve vários problemas, inclusive, tétano e quatro anos após, passou por cirurgias para refazer o estrago feito pelo suposto médico.

Hoje com 91 anos, e morando no Centro de Convivência dos Idosos, Antonio Lino, também se diz uma vítima de Jossef Kanat, como era chamado o médico em Mamborê. Ele conta que foi operado de apêndice em meados 1956 e que a pessoa que o atendeu não usou nenhum tipo de anestesia. “Amarraram minhas mãos e meus pés. Com uma faca o médico cortou minha barriga e fez a cirurgia. Fiquei mais de 20 dias internado”, conta ele, que ainda tem na barriga a cicatriz de um grande corte. “Foi um médico alemão que fez isso comigo. Eu gritava de dor, e ele só me mandava calar a boca e me xingava de preto. Realmente era um racista”, conclui.

A passagem do médico por Mamborê foi curta, mas o suficiente para deixar sua marca. Além de mutilações, também ocorreu uma morte. A vítima seria uma ex-namorada dele, e a morte teria acontecido durante um aborto mal sucedido.

Agricultor afirma que conheceu o suposto médico

Com 83 anos e desde 1946 morando em Mamborê, o agricultor Noli Barzotto, afirma que conheceu o suposto médico alemão. Ele confirma a histórias das vítimas e diz que teve contato com Jossef na residência de Ricardo Kauffmann, já falecido, e que, construiu o hospital em que o suposto médico trabalhou.

Ele recorda que por várias vezes viu o médico na casa do Ricardo, que também era alemão. “Eles conversavam sempre na língua deles. O tal médico falava português muito mal”, recorda o agricultor que mora em uma pequena chácara, próxima a cidade de Mamborê.

De acordo com Barzotto, o medido chegou à cidade com uma carteira de médico, uma maleta cheia de ‘ferramentas’ e pediu emprego ao Ricardo. “Ele ficou na cidade pouco tempo. Certo dia ele anoiteceu e não amanheceu”, lembra o agricultor que tem uma memória invejável. Barzotto comenta que o suposto médico teria fugido, após ficar sabendo de que alguns homens o procuravam. “Três ou quatro dias depois que ele sumiu apareceram quatro homens em um carro a procura pelo alemão. Esses homens também eram estrangeiros”, afirma.

Há relatos de que o suposto nazista teria fugido para o Paraguai, onde continuou trabalhando como médico, porém o agricultor acredita que ele fez o mesmo caminho quando chegou a Mamborê. “Ele veio do Norte do Paraná passando por Londrina e Maringá. Isso ele contava sempre. Acredito que fez o mesmo trajeto. A prova é que alguns anos depois o corpo dele foi encontrado no interior de São Paulo.”

O agricultor também confirma a morte de uma mulher. “Ela foi enterrada no cemitério da cidade. Lembro-me que algum tempo depois a família dessa mulher, que era de São Paulo, veio até Mamborê e levou os restos mortais que estavam aqui”, conclui Barzotto. (AM).

Quem foi Josef Mengele?

Muita polêmica gira em torno de Josef Mengele, o Abominável Doutor de Auschwitz, geralmente caracterizado como Anjo da Morte. Seu papel no campo de concentração consistia na seleção das pessoas para a câmara de gás. Entretanto, talvez a sua principal função em Auschwitz, era em relação a uma pesquisa que realizava com gêmeos, que proporcionavam perfeitos espécimes experimentais. Em algumas de suas experiências, utilizava injeções de acido fênico que servia para matar um dos gêmeos.

Mengele foi o segundo filho de um rico industrial Bávaro. Ele é descrito como um estudante sério com notável inteligência e ambição. Em 1931, Mengele se une ao partido nazista, solicitando sua admissão na SS. Em seus estudos universitários, sempre tendeu a antropologia, física e genética.

A rota para o corpo docente foi interrompido em 1938, quando entrou definitivamente para a carreira militar. Já em Auschwitz, Mengele foi um comandante muito ativo depois que lá chegou em 1943. A maioria dos doutores que o testemunharam indicam que foi onipresente. Também contam histórias de seu envolvimento médico com pacientes sem nunca ter estudado medicina. Tanto é que anos mais tarde, a Corte de Frankfurt o denunciou e o acusou de crimes hediondos cometidos por ele.

Depois de sua fuga da Alemanha e das suspeitas de sua caminhada pelo interior do Paraná, a última notícia é que seus ossos foram encontrados no interior de São Paulo. Lá, enquanto vivo, usava o nome de Wolfgang Gerhard. Os seus ossos foram exumados em 1985, no cemitério de Rosário, na cidade de Embu das Artes, na grande São Paulo. A perícia, conduzida por especialistas do IML e da FOUSP, determinou que a ossada era do médico nazista: um defeito dental que tinha nos dentes superiores frontais foi comprovado, além de coincidir em idade e estatura. Em 1992, uma análise de ADN confirmou finalmente a sua identidade.

Antonio Marcio

De Tribuna do Interior.

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