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Restos da antropologia indigenista – Leão Alves

Marike de Klerk, ex-mulher do último presidente branco da África do Sul, Frederik de Klerk, afirmou em uma entrevista, em 1983, que os Coloureds, como são denominados os mestiços daquele país:

“São um grupo negativo. A definição de Coloured no registro da população é alguém que não é preto, não é branco e também não é indiano, em outras palavras uma não-pessoa. Eles são a sobra. Eles são o povo que foi deixado após as nações terem sido classificadas. Eles são o resto”.

Esta depreciação da mestiçagem não ocorria somente entre autoridades brancas sul-africanas. Quase nunca divulgado na mídia do Brasil, e desconfio que também na de muitos outros países, é o fato do regime do apartheid ter contado com o apoio e colaboração de muitos pretos também hostis à mestiçagem.

Charles Sebe, um militar diretor de segurança do bantustão de Ciskei, um dos territórios indígenas criados pelo regime do apartheid, durante um discurso afirmou que:
“O que você ganha com um casamento misto? Você ganha um Coloured. Você não ganha um branco, você não ganha um preto, mas sim uma criança frustrada que não pertence a lugar algum”.
Miscigenação é o que os racistas mais temem, por isso, eles usam termos negativos para se referirem a pessoas mestiças e à mestiçagem.
O verwoerdismo, a ideologia do apartheid, é um tipo de indigenismo, um racismo desenvolvido por intelectuais e políticos africâneres que buscavam legitimar a preservação da raça branca através da promoção do isolamento dos povos índios adornando-o com o cândido elogio da diversidade e promoção das diferenças.
A ex-primeira-dama da África do Sul estava certa ao dizer que um mestiço “não é preto, não é branco, e também não é indiano “, mas estava errada ao afirmar que um mestiço é uma “não-pessoa”. A cor verde é gerada pela mistura das cores azul e amarela. Verde não é azul ou amarelo, mas também é uma cor, uma cor independente.
Uma mestiçofobia e segregacionismo semelhantes estabeleceram-se no Brasil e em outros países da América Latina nas últimas décadas por ação de agências governamentais e ONGs milionárias da Europa e EUA, com apoio de grupos de esquerda, inclusive missionários católicos, em sua maioria brancos.
O projeto encontrou apoio e muitos colaboradores negros e índios, com louváveis exceções e resistências. Um projeto embalado por um discurso contra a mestiçagem, destacadamente no meio da antropologia militante indigenista, que muitas vezes desponta com manifestações explícitas de ódio a quem se identifica como mestiço.
Em Sociedades Caboclas Amazônicas: Modernidade e Invisibilidade, de Cristina Adams e outros, é registrado este ‘discurso antropológico’:
“(…) O retrato das sociedades caboclas ainda continua sendo negativo. No discurso antropológico que concerne às populações indígenas, os caboclos representam tanto os ‘restos’ de sociedades indígenas degradadas, como ameaças imediatas (invasões de terras) às poucas sociedades indígenas que transpuseram a catástrofe colonizadora”.
Com grande influência em órgãos como as Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA), esta mestiçofobia foi-se firmando na antropologia e diversas instituições acadêmicas foram ocupadas, excluindo manifestações opostas e resumindo o debate a: um diz “- Sim”, o outro “- Exatamente”, e o mediador apazigua “- É verdade”.
Não há discordância de princípios, somente de medidas e ângulos: dos limites do bantustão e de quanto e se vai ser pago por ele.
É um quadro desafiador para os mestiços de diversos lugares do mundo. Se um povo mestiço não agir com independência e defender os seus interesses como grupo étnico, um inquestionável mestiço vai ser assimilado à força dentro de outros grupos. Não vai, porém, ser assimilado como igual, mas como um “índio duvidoso” ou um “negro duvidoso” – algo que as repetidas exclusões de pardos que se identificam como negros para concorrerem às quotas raciais no Brasil exemplificam perfeitamente.
Políticas de assimilação de mestiços dentro da população negra não têm eliminado tensões, como demonstram o Haiti e a África do Sul.
No início do séc. XIX, no Haiti, o primeiro governante do país independente, o imperador Dessalines, tentou fazer a assimilação dos mulatos dentro da população preta, tanto por medidas oficiais, como estabelecer na Constituição que todos os haitianos eram pretos, quanto por medidas discriminatórias não oficiais.
No final do séc. XX, na África do Sul, o regime de minoria branca encerrou e passou a ser governado pelo Congresso Nacional Africano (CNA). O partido preto estabeleceu uma política assimilacionista contra os Coloureds, população majoritária na Província do Cabo, a maior do país. O CNA conseguiu instituir por lei cotas raciais para vagas em programa de emprego, mas realiza a distribuição local das vagas com percentuais nacionais. Isto estimula os Coloureds a migrarem para áreas de maioria preta e pretos a migrarem para áreas de maioria Coloureds, levando a construir uma maioria preta em todo o país e acabar com a tendência a resistência ao CNA na Província do Cabo.
No Brasil, a Desmestiçagem foi idealizada antes da Constituição de 1988, mas com esta ganhou força constitucional. Seus ideólogos foram majoritariamente antropólogos, sociólogos e outros intelectuais e políticos brancos de esquerda.
Nesta e em qualquer outra situação, a primeira questão com que um povo miscigenado deve lidar é com a decisão se será uma identidade própria e independente, ou seja, se será uma etnia mestiça; se vai ser assimilado em outra ou outras, ou seja, se vai ser apenas um conjunto de pessoas que se identificam como pertencentes a diversas etnias e que só têm em comum serem miscigenadas; ou ainda se vai ser apenas um ajuntamento de indivíduos sem qualquer pertencimento étnico, tão integrados entre si quanto um grupo de pessoas numa parada de ônibus. Esta é uma questão que pode ser feita em relação à realidade da Bolívia, da China, dos Estados Unidos, de qualquer país onde haja um povo miscigenado.
Não é uma questão simplesmente genealógica. Etnia é distinta de ‘raça’. Um grupo étnico, apesar de ser maioritariamente constituído por pessoas de uma ‘raça’, pode acolher pessoas que são de outra ‘raça’. Uma etnia mestiça adota dois ou mais grupos étnicos como a base permanente de sua identidade, sem ter prejuízo ao integrar outras pessoas pelo próprio processo de mestiçagem.
Por exemplo, os cambas, da Bolívia, adotam a mestiçagem entre guaranis e espanhóis; os Burgers portugueses do Sri Lanka, a mestiçagem entre portugueses e cingaleses; os Métis do Canadá, a mestiçagem entre índios do Canadá, franceses, ingleses e escoceses; os Rehoboth Basters, da Namíbia, a mestiçagem entre o povo africano nama e holandeses; o mestiço brasileiro, a mestiçagem entre índios do Brasil, colonizadores portugueses e pretos africanos trazidos pelo escravismo dentro do processo de formação da Nação brasileira.
A miscigenação é apenas mistura de origens. É só quando o povo miscigenado passa a se ver como um grupo étnico que ele se torna um povo mestiço e pode trabalhar para defender os seus interesses como grupo, caso contrário ele será governado por outros povos que podem não ter os mesmos interesses que os seus – e que podem descartá-lo quando não mais forem de seu interesse.
Em países onde mestiços criaram as suas próprias associações e promoveram as suas respectivas identidades mestiças eles se fortaleceram contra a assimilação e propiciaram avanços.
No Brasil, o Nação Mestiça comemora anualmente o “Dia do Mestiço” (27 de junho), obteve o reconhecimento de ‘mestiço’ como uma etnia por três Estados, e, apesar da hostilidade do Governo Federal, do aparato de ONGs indigenistas e negristas, de suas academias de antropologia, de universidades ocupadas, de “partidos petistas” e de outros grupos segregacionistas, vai resistindo e firmando a identidade mestiça – para a ira irracional dos racistas e a vitória dos cabocos.
Leão Alves é médico e ex-presidente do Movimento Pardo-mestiço Brasileiro – Nação Mestiça.

Charles Sebe, um militar diretor de segurança do bantustão de Ciskei, um dos territórios indígenas criados pelo regime do apartheid, durante um discurso afirmou que:

“O que você ganha com um casamento misto? Você ganha um Coloured. Você não ganha um branco, você não ganha um preto, mas sim uma criança frustrada que não pertence a lugar algum”.

Miscigenação é o que os racistas mais temem, por isso, eles usam termos negativos para se referirem a pessoas mestiças e à mestiçagem.

O verwoerdismo, a ideologia do apartheid, é um tipo de indigenismo, um racismo desenvolvido por intelectuais e políticos africâneres que buscavam legitimar a preservação da raça branca através da promoção do isolamento dos povos índios adornando-o com o cândido elogio da diversidade e promoção das diferenças.

A ex-primeira-dama da África do Sul estava certa ao dizer que um mestiço “não é preto, não é branco, e também não é indiano “, mas estava errada ao afirmar que um mestiço é uma “não-pessoa”. A cor verde é gerada pela mistura das cores azul e amarela. Verde não é azul ou amarelo, mas também é uma cor, uma cor independente.

Uma mestiçofobia e segregacionismo semelhantes estabeleceram-se no Brasil e em outros países da América Latina nas últimas décadas por ação de agências governamentais e ONGs milionárias da Europa e EUA, com apoio de grupos de esquerda, inclusive missionários católicos, em sua maioria brancos.

O projeto encontrou apoio e muitos colaboradores negros e índios, com louváveis exceções e resistências. Um projeto embalado por um discurso contra a mestiçagem, destacadamente no meio da antropologia militante indigenista, que muitas vezes desponta com manifestações explícitas de ódio a quem se identifica como mestiço.

Em Sociedades Caboclas Amazônicas: Modernidade e Invisibilidade, de Cristina Adams e outros, é registrado este ‘discurso antropológico’:

“(…) O retrato das sociedades caboclas ainda continua sendo negativo. No discurso antropológico que concerne às populações indígenas, os caboclos representam tanto os ‘restos’ de sociedades indígenas degradadas, como ameaças imediatas (invasões de terras) às poucas sociedades indígenas que transpuseram a catástrofe colonizadora”.

Com grande influência em órgãos como as Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA), esta mestiçofobia foi-se firmando na antropologia e diversas instituições acadêmicas foram ocupadas, excluindo manifestações opostas e resumindo o debate a: um diz “- Sim”, o outro “- Exatamente”, e o mediador apazigua “- É verdade”.

Não há discordância de princípios, somente de medidas e ângulos: dos limites do bantustão e de quanto e se vai ser pago por ele.

É um quadro desafiador para os mestiços de diversos lugares do mundo. Se um povo mestiço não agir com independência e defender os seus interesses como grupo étnico, um inquestionável mestiço vai ser assimilado à força dentro de outros grupos. Não vai, porém, ser assimilado como igual, mas como um “índio duvidoso” ou um “negro duvidoso” – algo que as repetidas exclusões de pardos que se identificam como negros para concorrerem às quotas raciais no Brasil exemplificam perfeitamente.

Políticas de assimilação de mestiços dentro da população negra não têm eliminado tensões, como demonstram o Haiti e a África do Sul.

No início do séc. XIX, no Haiti, o primeiro governante do país independente, o imperador Dessalines, tentou fazer a assimilação dos mulatos dentro da população preta, tanto por medidas oficiais, como estabelecer na Constituição que todos os haitianos eram pretos, quanto por medidas discriminatórias não oficiais.

No final do séc. XX, na África do Sul, o regime de minoria branca encerrou e passou a ser governado pelo Congresso Nacional Africano (CNA). O partido preto estabeleceu uma política assimilacionista contra os Coloureds, população majoritária na Província do Cabo, a maior do país. O CNA conseguiu instituir por lei cotas raciais para vagas em programa de emprego, mas realiza a distribuição local das vagas com percentuais nacionais. Isto estimula os Coloureds a migrarem para áreas de maioria preta e pretos a migrarem para áreas de maioria Coloureds, levando a construir uma maioria preta em todo o país e acabar com a tendência a resistência ao CNA na Província do Cabo.

No Brasil, a Desmestiçagem foi idealizada antes da Constituição de 1988, mas com esta ganhou força constitucional. Seus ideólogos foram majoritariamente antropólogos, sociólogos e outros intelectuais e políticos brancos de esquerda.

Nesta e em qualquer outra situação, a primeira questão com que um povo miscigenado deve lidar é com a decisão se será uma identidade própria e independente, ou seja, se será uma etnia mestiça; se vai ser assimilado em outra ou outras, ou seja, se vai ser apenas um conjunto de pessoas que se identificam como pertencentes a diversas etnias e que só têm em comum serem miscigenadas; ou ainda se vai ser apenas um ajuntamento de indivíduos sem qualquer pertencimento étnico, tão integrados entre si quanto um grupo de pessoas numa parada de ônibus. Esta é uma questão que pode ser feita em relação à realidade da Bolívia, da China, dos Estados Unidos, de qualquer país onde haja um povo miscigenado.

Não é uma questão simplesmente genealógica. Etnia é distinta de ‘raça’. Um grupo étnico, apesar de ser maioritariamente constituído por pessoas de uma ‘raça’, pode acolher pessoas que são de outra ‘raça’. Uma etnia mestiça adota dois ou mais grupos étnicos como a base permanente de sua identidade, sem ter prejuízo ao integrar outras pessoas pelo próprio processo de mestiçagem.

Por exemplo, os cambas, da Bolívia, adotam a mestiçagem entre guaranis e espanhóis; os Burgers portugueses do Sri Lanka, a mestiçagem entre portugueses e cingaleses; os Métis do Canadá, a mestiçagem entre índios do Canadá, franceses, ingleses e escoceses; os Rehoboth Basters, da Namíbia, a mestiçagem entre o povo africano nama e holandeses; o mestiço brasileiro, a mestiçagem entre índios do Brasil, colonizadores portugueses e pretos africanos trazidos pelo escravismo dentro do processo de formação da Nação brasileira.

A miscigenação é apenas mistura de origens. É só quando o povo miscigenado passa a se ver como um grupo étnico que ele se torna um povo mestiço e pode trabalhar para defender os seus interesses como grupo, caso contrário ele será governado por outros povos que podem não ter os mesmos interesses que os seus – e que podem descartá-lo quando não mais forem de seu interesse.

Em países onde mestiços criaram as suas próprias associações e promoveram as suas respectivas identidades mestiças eles se fortaleceram contra a assimilação e propiciaram avanços.

No Brasil, o Nação Mestiça comemora anualmente o “Dia do Mestiço” (27 de junho), obteve o reconhecimento de ‘mestiço’ como uma etnia por três Estados, e, apesar da hostilidade do Governo Federal, do aparato de ONGs indigenistas e negristas, de suas academias de antropologia, de universidades ocupadas, de “partidos petistas” e de outros grupos segregacionistas, vai resistindo e firmando a identidade mestiça – para a ira irracional dos racistas e a vitória dos cabocos.

Leão Alves é médico e ex-presidente do Movimento Pardo-mestiço Brasileiro – Nação Mestiça.

De Portal do Zacarias, 13/06/2015.

Posted in Artigos, Leão Alves, Português.


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