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Chapeuzinho e o lobo vermelho – Leão Alves

Era uma vez uma menina muito meiga e obediente. Um dia sua mãe a chamou e disse:

– Chapeuzinho, tua vó está doente. Toma, leva estas frutas e verduras para ela. Não esqueça a tua capa, pois está chovendo muito.

Chapeuzinho pegou sua boina vermelha enfeitada com uma estrelinha e sua capa da mesma cor, um conjuntinho que recebera de presente da vovó. Vovó era muito devota, quase nunca faltava às missas e até freqüentava uma pastoral onde comprara o conjuntinho. A menina gostou tanto do presente que foi apelidada de Chapeuzinho.

– Cuidado, chapeuzinho, não pares para ninguém, não recebas presentes e não inventes de ir por atalho. Não falta gente ruim e gente pior que apóie; nem crianças escapam.

– Tá bom, mamãe.

Chapeuzinho era muito atenciosa com a mãe, mas não entendia bem o porquê da preocupação dela nem o que queria dizer. Em sua curta vida nunca vira nada de muito mau acontecer, exceto o sumiço do gato Xodó. O céu começou a nublar e a mãe de Chapeuzinho a apressou.

A menina saiu de casa e seguiu direto pela rua. Exceto por um ou outro buraco e o sobe e desce das ladeiras, era possível chegar à casa da vovó sem nenhum outro problema, simplesmente seguindo a rua que fazia uma longa curva. As brisas, porém, tornaram-se vento e as nuvens escuras escureceram mais ainda a tarde indicando que não seria possível chegar à casa da vovó antes da chuva descer.

Chapeuzinho, então, optou por entrar num beco semi-asfaltado que encerrava numa trilha de barro que entrava no meio de um capinzal que se prolongava até um brejo que podia ser atravessado pulando regos e equilibrando-se em troncos caídos.

Era nesse lugar que vivia, ou melhor, perambulava o lobo. O lobo tivera alguns problemas com a polícia e se refugiara ali, meditando sobre a vida, fazendo planos e esperando uma oportunidade. Avistou a menina passando apressada, tentando salvar seu amado chapeuzinho do toró que se aproximava. Apressou-se também e, acompanhando-a, perguntou:

– Companheira, onde você vai com tanta pressa? – interrogou com toda a inocência que seu rosto pudesse fingir.

– Estou indo pra casa da vovó, mas mamãe disse que não era pra mim conversar com desconhecidos.

– Eu não sou desconhecido, na verdade o meu problema é ser conhecido demais. Mas onde mora sua vovó?

– No fim da rua, mas mamãe disse que não era pra mim contar isso pra ninguém.

– Muito repress…, digo… Certo, muito esperta sua mãe.

Passando à frente de Chapeuzinho o lobo desapareceu meio ao matagal. Chegando à casa da vovó, o lobo, um antigo conhecido dela, não teve problemas para entrar. Mal esta abriu a porta, o animal, quase se engasgando por não ter tempo para mastigar, engoliu a idosa e apressadamente vestiu sua roupa, colocou seus óculos e aguardou Chapeuzinho deitado na cama.

Toc, toc, toc! Soou à porta.

– Entre, Chapeuzinho!

Ela entrou.

– Poxa, vovó, já estava me esperando? A senhora parece estar mal mesmo. Está até rouca.

A menina sentou ao lado da cama, perto de uma cômoda onde repousava um livro do frei Boff, um presente de um colega da pastoral.

– Venha cá, comp…, digo, querida. Deixe a vovó lhe dar um beijo.

– Sim, vovó. Mas… Vovó, que grandes orelhas a senhora tem!

– É pra melhor ouvir as pessoas, querida! E você também.

– Poxa, vovó, que grandes olhos a senhora tem!

– É pra vigiar, digo, ver melhor as pessoas, querida! E você também.

– Mas vovó, que grandes braços a senhora tem!

– É pra abraçar melhor as pessoas e mantê-las bem unidas a mim! E você também.

– Mas vovó, que boca grande a senhora tem!

– É pra melhor levar os bobos no bico e te devorar!

Mal terminou de falar, o lobo pulou da cama em cima de Chapeuzinho Vermelho. A menina, porém, teve tempo de antever o pulo do gato, digo, do lobo e desviar-se. Correndo de um lado para o outro e esquivando-se do perverso animal, Chapeuzinho gritava por socorro e tão mais desesperada quanto mais o lobo se aproximava dela.

Para a sorte de Chapeuzinho, havia por aquela região um caçador com grande experiência em lidar com ataques de lobos, especialmente os daquele tipo.

– Socorro! – gritava Chapeuzinho.

– Será que eu ouvi um grito de socorro? – pensou o caçador buscando identificar de onde vinha o grito.

– Socorro! – continuava a gritar Chapeuzinho, ora mais alto, ora mais fraco, conforme seu fôlego lhe permitia.

– É dali que vem o grito! – disse o caçador, correndo em direção ao local de onde também já se ouvia o som do quebra-quebra que o lobo fazia na casa para assustar Chapeuzinho e tentar cobrir seus berros.

– Não adianta tentar fugir, menina. A casa já é minha. Tá tudo dominado.

Aproximando-se o caçador pode identificar a casa.

– Ih, rapaz, é a casa da vovozinha. Ela me detesta, vive falando mal de mim há décadas – pensou ele consigo. – Na última vez que eu acertei uns lobos desse tipo ela me acusou de estar atentando contra uma espécie em extinção.

Antes que o lobo pudesse gritar “Fascista!”, “Coxinha!”, “Reaça!”, foi derrubado por um tiro certeiro. Rápido, o caçador abriu o ventre da fera e libertou a vovó. Recuperadas do susto, avó e neta agradeceram o caçador que, depois de presentear a vovó com um livro de Gilberto Freyre e um novo tapete, levou Chapeuzinho, com sua boina verde e sua capa amarela novinhas, de volta para casa.

Ah, sim, e viveram felizes quase sempre.

Leão Alves é médico e ex-presidente do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro (Nação Mestiça)

De Portal do Zacarias, 31/05/2015.

Posted in Artigos, Leão Alves, Português.


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