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Material pago pela Frente de Defesa da Amazônia sugere que populações usem a força

Cartilha da Igreja pede reação contra usinas

Material pago pela Frente de Defesa da Amazônia sugere que populações usem a força

Quando o governo federal se dispuser a iniciar os trabalhos de campo para construção das cinco hidrelétricas previstas no complexo do Tapajós, em Itaituba, provavelmente encontrará a região potencialmente conflagrada. Uma cartilha preparada e distribuída por entidades e movimentos sociais congregados sob o nome de “Aliança Tapajós Vivo”, na qual tem forte participação a Igreja Católica, está preparando naquela região um plano de resistência que poderá resultar em confronto e violência.

Essa possibilidade vem sendo discutida em alguns gabinetes influentes do meio empresarial do Pará, ligados principalmente ao comércio e à indústria, com base na leitura e interpretação da cartilha, que busca mobilizar os moradores da região a se posicionar contra o projeto do governo para a construção de hidrelétricas. E não apenas no Tapajós, já que a publicação dedica um capítulo também à bacia do Xingu. De acordo com o padre Edilberto Sena, um dos responsáveis pela produção da cartilha, os dados nela contidos são oficiais, divulgados pelo Ministério de Minas e Energia, Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e Eletronorte.

O que tem chamado a atenção dos empresários, porém, são os desenhos e ilustrações da cartilha, bem como os textos que os acompanham no formato de histórias em quadrinhos. Um empresário do setor industrial que teve acesso à publicação mostra-se espantado. Segundo ele, o que se está fazendo ali é uma clara recomendação ao uso da força contra agentes do governo, operários, engenheiros ou quaisquer profissionais que aparecerem na região para fazer algum trabalho ou simples estudo relacionado direta ou indiretamente à construção de hidrelétricas.

A cartilha é uma produção coletiva da Frente em Defesa da Amazônia, Movimento Tapajós Vivo e Aliança Missionária Francisclariana do Tapajós. O texto e montagem são do padre Edilberto Sena e de uma irmã dele, Enoy Sena. O projeto gráfico tem o financiamento da Frente em Defesa da Amazônia, Aliança Francisclariana, Fase – Programa Amazônia, Congregação Verbo Divino, Fundo Dema e Fundação Ford.

Aliás, a Fundação Ford não é a única referência estrangeira feita pela revista como estando empenhada em impedir a construção de hidrelétricas na Amazônia. A publicação presta uma homenagem póstuma ao norte-americano Glenn Switkers, “amazônida de coração, que se dedicava a defender nossos rios da sanha destruidora das barragens”. Membro da Organização Rios Vivos, segundo a revista, Glenn Switkers “foi grande colaborador em nossa luta em defesa dos rios Xingu e Tapajós, desafiando os projetos de hidroelétricas do governo federal”.

Produzida toda ela em tom beligerante, a cartilha desnuda o sentimento de intolerância que está sendo cultivado na região, como em carta dirigida ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por lideranças indígenas da etnia munduruku no início de novembro do ano passado. A correspondência ao presidente foi subscrita por nove caciques, de um total de cerca de 60 participantes do encontro, que se realizou nos últimos dias 5 e 6 de novembro na Missão São Francisco do Cururu, no Alto Tapajós.

Em carta a Lula, caciques Munduruku citam guerra e fazem ameaças

“Nós, etnia Munduruku, queremos mostrar agora como acontecia com os nossos antepassados e os brancos (pariwat) quando em guerra, cortando a cabeça, como vocês veem na capa deste documento. Por isso não queremos mais ouvir sobre essas barragens na bacia do Rio Tapajós.” A frase ameaçadora acompanhou a carta dos caciques munduruku dirigida em novembro passado ao presidente Lula e ao ministro Edson Lobão, de Minas e Energia. A correspondência foi reproduzida também com destaque pela cartilha, juntamente com a ilustração a que fizeram referência as lideranças indígenas.

Trata-se de dois desenhos, ambos retratando supostos guerreiros indígenas tendo às mãos uma cabeça humana separada do corpo – de uma delas ainda escorrendo sangue. Os desenhos têm sua autoria atribuída a dois alunos da Missão São Francisco do Cururu.

A legenda é inequivocamente autoexplicativa: “Guerreiros cortador de cabeça do (pariwat) brancos”.

Além da ameaça claramente expressa na carta e no desenho, a revista contém várias outras insinuações de violência e de luta armada, fazendo múltiplas referências ao espírito supostamente belicoso dos índios munduruku para tentar influenciar os ânimos dos moradores da região.

Assumindo caráter didático, a cartilha reproduz diálogos entre pessoas fictícias – jovem, colono, pescador, irmã religiosa, pastor evangélico, professora, pequeno comerciante e outros –, buscando personificar os diferentes tipos humanos que povoam a região. Nesses diálogos, os índios munduruku são citados de forma recorrente, e sempre em circunstâncias potencialmente conflituosas.

Na página seis, por exemplo, um presumido estudante dirige-se a um caboclo – “caboco”, na linguagem empregada pela revista – para lhe perguntar se ele “está sabendo que a Eletronorte quer destruir o rio Tapajós para construir hidrelétricas”.

Ao final da “conversa”, o caboclo, já indignado, assume como sendo seu o discurso guerreiro. “Também sei que os índios munduruku já garantiram que nas terras deles o governo não mete a mão, vai ter enfrentamento. Portanto, a gente não está só, nossos vizinhos é que estão ainda parados. Mas vamos juntar todos e contra a força da união não há força de canhão que vença”, dispara o antes humilde e pacato ribeirinho.

Na página oito, outro diálogo também está longe também de induzir ao diálogo e à concórdia. “Se nós cruzarmos os braços e só esperar pela Funai, tudo vai ser destruído. Hidrelétricas não é para índio, nem para caboco, é só para empresas grandes dos pariuat (brancos) de lá de longe”, afirma uma irmã religiosa. Sua interlocutora, uma índia de facão em punho e olhar feroz, reage: “Mas irmã, nós vai enfrentar. Mulher índia ajudar home índio a flechar e cortar cabeça de pariuat (branco) inimigo. Índia sabe usar facão. Nós não quer hidrelétrica no Tapajós, no Jamanxim, no Cururu”.

Padre afirma: “defender a Amazônia não é crime”

Um dos responsáveis pela produção da cartilha, o padre Edilberto Sena, vigário paroquial e radialista, que se define como “militante em defesa da Amazônia e do Tapajós em especial”, não vê motivo para tanto alarde quanto ao teor da cartilha. Sobre o desenho dos estudantes da missão Cururu, por exemplo, ele explica que “o costume de cortar a cabeça era uma tradição dos antepassados”. Estes mantinham as cabeças dos inimigos penduradas no portal da oca, conforme frisou,

como trunfo de guerra, “pois os mundurukus existem ainda hoje porque sempre foram valentes guerreiros”, acrescenta.

Padre Edilberto Sena compara a atual relação entre o governo e a Amazônia com a do período Colonial e diz ainda que “qualquer atitude de inconformismo de trabalhadores, ribeirinhos, indígenas, moradores de periferia e do movimento dos sem-terra é logo considerada insubordinação à ordem democrática, incitação ao crime e deve ser exemplarmente punida”.

Para ele, o governo federal, através do PAC, decidiu “arbitrariamente” construir dez mega-hidrelétricas na Amazônia sem consultar as populações da região a serem prejudicadas. “Ele sabe que irá interferir no habitat dos povos indígenas Kaiapó, Munduruku, Juruna e mais outros 14 povos indígenas das duas bacias hidrográficas”, acrescenta.

O governo federal decidiu construir cinco mega-hidrelétricas nos rios Tapajós e Jamanxin e a propaganda da Eletronorte diz que serão usinas modernas, com mínimos impactos ambientais, porque utilizarão um novo modelo em forma de plataforma. “Como considerar um projeto com mínimos impactos quando os dados da própria empresa afirmam que serão atingidos 105,5 mil hectares de inundação em áreas protegidas”, rebate o padre Edilberto Sena.

INSTRUMENTO DE LUTA

“Um total de 55 quilômetros quadrados de área Munduruku serão também inundados. Sem contar as centenas de famílias ribeirinhas de Jacareacanga, Pimental, São Luiz do Tapajós, Periquitos, Vila Rayol, que deverão ser expulsas de suas comunidades, indenizadas precariamente, perdendo seu rio, seus cemitérios, seu modo de vida que depende do rio e da mata. Nada disso parece crime para o governo”, dispara o religioso.

Em nota pública divulgada logo após matéria recente sobre a sua cartilha, publicada pelo jornal Folha de São Paulo, a Frente em Defesa da Amazônia reafirmou que suas ações se pautam “pela defesa contra os crimes e criminosos da Amazônia” e que a cartilha é um “instrumento de luta com objetivo de dar informação sobre o real significado das hidrelétricas na bacia do Tapajós e incentivar a organização da resistência dos povos afetados”. Para a FDA, as matérias que vêm sendo tratadas na imprensa sobre o assunto seriam parte de “uma iniciativa nacional de criminalização dos movimentos sociais, coordenada por setores do agronegócio”. 

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