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Mistura de raças é explorada politicamente nos Estados Unidos – Kevin Noble Maillard

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Quando o candidato é de uma raça diferente daquela do seu cônjuge, parceiro ou “amigo”, os oponentes dispõem de um coquetel combustível para explorar as inseguranças do eleitor

Qual é a forma mais eficiente de destruir uma carreira política? Escândalos financeiros, antecedentes criminais ou atos de rebeldia na época da universidade são todos instrumentos confiáveis para a destruição de carreiras políticas, mas geralmente são os lascivos escândalos sexuais que fazem a casa cair. Jack Ryan, que disputou uma vaga no senado com Barack Obama, nos proporcionou os clubes sexuais parisienses. Mark Sanford, ex-governador da Carolina do Sul, ficou famoso pelas suas caminhadas pela Trilha dos Apalaches. E o ex-senador John Edwards protagonizou um escândalo que incinerou a sua carreira política.

Acrescentemos a essa equação as questões raciais – especialmente aquelas referentes a relações inter-raciais –, e os preconceitos políticos são exponenciados. A aglutinação de relações inter-raciais e políticas faz com que dispare a ansiedade fundamental dos Estados Unidos quanto às fronteiras raciais. Essa questão tem provocado o desabamento de carreiras políticas desde que os Estados Unidos se tornaram uma república.

Quando o candidato é de uma raça diferente daquela do seu cônjuge, parceiro ou “amigo”, os oponentes dispõem de um coquetel combustível para explorar as inseguranças do eleitor. Perguntem ao fantasma de Thomas Jefferson, que enfrentou décadas de críticas devido ao seu relacionamento com “Dusky Sally”, a sua escrava mestiça que gerou seis filhos miscigenados. Ou pensemos em Richard Johnson, vice-presidente no governo de Martin Van Buren. Johnson foi condenado pela imprensa por ter se amasiado com uma “jovem cor de piche, malcheirosa e beiçuda”. E, mais recentemente, há o caso de Harold Ford Jr., que foi extremamente criticado durante a sua campanha pelo senado, no Tennessee, tendo sido chamado de “playboy amante de mulheres brancas”. Para essas figuras – que são apenas uma pequena amostra de um universo vasto – a fronteira racial provocou danos às suas reputações. Mas por que uma relação inter-racial tornar-se-ia um perigoso problema político? Para a maioria das pessoas, o sexo e os relacionamentos amorosos são questões de cunho privado, mas para as figuras públicas, a vida íntima vira notícia. Acrescentemos a isso a questão racial e nos vemos diante de um problema concreto. Obama teve alguma namorada branca na universidade? A ex-governadora do Alasca, Sarah Palin, namorou ou não um atleta negro? Existem membros da realeza europeia que têm ascendência negra ou asiática (Liechtenstein e Dinamarca)? No mínimo, tais casos são imaginativamente interessantes. Mas qual a importância disso?

Teoricamente, não existe nenhuma barreira legal para esse tipo de relacionamento. Em 1967, no caso Loving x Virginia, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos legalizou o casamento inter-racial em todos os Estados. Mas um caso transformador não transforma automaticamente as opiniões pessoais. Algumas jurisdições não acataram a determinação do tribunal. Por meio do voto popular, a Carolina do Sul e o Alabama foram os últimos Estados a acabar com esse tipo de proibição em 1998 e 2000, respectivamente. Ainda que fosse impossível fazer cumprir qualquer lei do gênero, 40% dos eleitores do Alabama votaram a favor de manter a proibição dos casamentos inter-raciais na constituição estadual.

As opiniões quanto às relações inter-raciais são polêmicas, marcadas por um partidarismo radical e raramente ponderadas. Para algumas pessoas, a mistura inter-racial é algo de difícil, confuso e ofensivo. Para outros, os relacionamentos inter-raciais demonstram perfeitamente a irrelevância do conceito de raça.

Coletivamente, os norte-americanos afirmam não dar importância à cor da pele de um indivíduo. Nós apontamos para o nosso presidente multirracial como prova de que as barreiras raciais podem ser rompidas. E nós também repetimos a ideia de Martin Luther King Jr. de que não é aquilo que está na parte externa de uma pessoa que tem importância. Mas uma análise mais detalhada daquela declaração comum de que “a raça não tem importância” revela comportamento evasivo e desconforto. Esse diagnóstico geralmente depende de um dos dois seguintes sintomas: deficiência visual (eles “não enxergam a cor da pele de um indivíduo”) ou “ilusão arco-íris” (não se importar com o fato de uma pessoa ser “negra, branca, roxa ou verde”). Isso é um verdadeiro paradoxo: como é que a raça pode ser simultaneamente uma irrelevância e uma obsessão? Não é de se surpreender que esses defeitos óticos sejam rapidamente curados com a seleção de bairros, escolas e relacionamentos íntimos.

A liberdade de associação, em um nível íntimo, não se aplica a figuras políticas. Quando se trata de expor os defeitos de um candidato, a raça é um foco familiar de indignação. O ex-senador Bob Bennett, republicano por Utah, compreende este fato. Em 1999, ele identificou publicamente os dois fatores que poderiam impedir a escolha de George W. Bush para a vaga de candidato presidencial republicano. “Os únicos obstáculos seriam Bush pular na frente de um ônibus em movimento, ou a aparição de uma mulher, digamos, uma negra, com um filho ilegítimo dele”, declarou Bennett.

Bennett cometeu um erro ridículo ao responsabilizar mulheres negras e o transporte público pela queda de figuras públicas. Mas ele também acertou perversamente ao mencionar os temores persistentes e antiquados que há muito tempo não fazem mais nenhum sentido sob o aspecto legal.

A miscigenação é o instrumento original de ataque político. Acusações desse tipo afetaram todas as disputas políticas, a ponto de essa fixação se tornar o elemento definidor do candidato. Jefferson certamente não foi o único a ser alvo de tais acusações. Os adversários de Abraham Lincoln publicaram uma charge de campanha, “O Baile da Miscigenação”, que descrevia um regime inter-racial no qual homens brancos e mulheres negras dançavam, namoravam e bebiam livremente.

Essa questão inter-racial também afeta relacionamentos que não são nem escandalosos nem secretos na política, ainda que os casamentos inter-raciais tenham aumentado 30% nos últimos dez anos. Pouquíssimas figuras públicas na história norte-americana casaram-se com uma pessoa de outra raça, o que demonstra que existe uma relação curiosa entre mistura racial e elegibilidade. Embora os casamentos inter-raciais continuem sendo relativamente raros, correspondendo a 8,4% de todos os casamentos, no universo político eles são praticamente inexistentes.

Mesmo assim, às vezes o casamento inter-racial pode implicar em benefícios políticos. Quando disputou um cargo público na cidade de Nova York, Bill de Blasio colocou o seu casamento inter-racial no centro da sua campanha. Em Utah, Mia Love, que é haitiana-americana e mórmon, está disputando uma vaga na câmara dos deputados pelo Partido Republicano, com o apoio integral do seu marido, Jason, que também e mórmon. Como a vida familiar é uma parte tradicional da narrativa dos candidatos, algumas figuras públicas transcenderam com sucesso o escrutínio racial a fim de demonstrarem assimilação e integração à comunidade.

Mas essas histórias de sucesso não seriam prova de que a discriminação é coisa do passado? Não deveríamos pensar na substância do caráter do indivíduo em vez ficarmos discutindo questões vagas referentes à cor da pele dele? Será que nós ainda não atingimos um patamar pós-racial?

Nos Estados Unidos, onde as eleições se constituem frequentemente em um referendo sobre o caráter de um candidato, nós votamos não só em indivíduos, mas também em cenários inteiros nos quais eles vivem e amam. Nós levamos em consideração as suas ideologias, os seus passados, as suas personalidades e os seus relacionamentos. A nossa nação apropriou-se desinibidamente do mantra segundo o qual a raça é menos importante do que o conteúdo do caráter do candidato. Mas para que essa intenção seja de fato concretizada sem perder a sua força mítica, ela deve se estender também à cor da pele dos parceiros e cônjuges dos políticos.

Kevin Noble Maillard é professor de direito da Universidade de Syracuse. Ele é coeditor do livro “Loving v. Virginia in a Post Racial World: Rethinking Race, Sex, and Marriage” (“O Caso Loving x Virginia em um Mundo Pós-racial: Repensando Raça, Sexo e Casamento”). (Tradução: UOL)

De Tribuna Hoje, 15/07/2012.

Posted in Mestiçofobia | Desmestiçagem, Português.

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