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Xenofobia, bairrismo e ódio a nordestinos – Leão Alves

Após o episódio noticiado sobre uma estudante paulista que teria postado no Twitter mensagem incitando afogar nordestinos, alguns jornais publicaram matérias denominando o fato como xenofobia. Há uma palavra na língua portuguesa para um apego exagerado ao lugar onde se nasce ou se vive: bairrismo. Talvez alguns entendam que a palavra usada para classificar um ato não seja importante, mas a gravidade do fato. Concordo que incitar o afogamento de pessoas é macabro em qualquer situação, independentemente da palavra que se associe a isto. A escolha do termo xenofobia e não bairrismo, porém, levanta certos aspectos importantes relacionados à política racial e étnica promovida pelo governo petista e mesmo por alguns segmentos que lhe são opositores.

Xenofobia significa, a rigor, aversão a estrangeiros. Até que ponto o seu emprego no sentido de aversão a nordestinos pode revelar e/ou estimular a visão do nordestino como estrangeiro dentro de seu próprio país?

A palavra num sentido amplo significaria qualquer a aversão ao estranho, ao diferente. A aversão ao diferente manifesta-se no desejo de não residir, de não conviver e principalmente de não se misturar, de preservar intocadas suas características diante do estranho, de não ser influenciado pelo outro. Neste sentido amplo, a xenofobia pode manifestar-se tanto naquele habitante que é avesso às culturas imigrantes quanto no imigrante que, como o personagem Lentz do romance Canaã, de Graça Aranha, hostilizava o nativo, o caboclo, o mulato, o brasileiro, e defendia uma suposta superioridade e a preservação de sua raça e de sua cultura frente ao povo nacional.

Lentz ficaria muito feliz se tivesse vivido nestes anos de governo petista. Ele veria projetos como o 3056/08 do deputado federal Ângelo Vanhoni (PT-PR) avançando no Congresso e propondo criar áreas de preservação cultural tendo entre seus princípios “a preservação dos direitos culturais, o exercício de práticas comunitárias, a memória cultural e a identidade racial e étnica”. Ou seja, numa destas áreas de cultura imigrante européia não será permitido a um nordestino ou a outro brasileiro abrir uma casa de forró, p. ex. Como o PL refere-se a ‘identidade racial’, fica a questão se miscigenação também será visto como uma ameaça aos objetivos do projeto.

Lentz também ficaria feliz com as chamadas “desintrusões”, ou seja, expulsões xenófobas (neste sentido amplo) de brasileiros dentro do território de seu próprio país a fim de não misturar culturas e etnias.

Ficaria também muito feliz vendo o governo petista decretando a extinção dos mulatos, sancionando o fim da identidade mestiça brasileira. Também se alegraria com os comentários sobre mulatos contidos nas orientações curriculares publicadas pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo na  administração do prefeito Gilberto Kassab.

Lentz é um personagem de ficção, mas quem estiver interessado pode pesquisar que irá encontrar assemelhados e até piores na realidade.

No Amazonas houve uma visão bem diferente sobre nordestinos em comparação a São Paulo. Para algumas pessoas afirmar-se como filhas de nordestino, em especial de cearense, era uma forma de afirmarem-se brancas, em contraste com o caboco local. Esta postura distinta não ocorria só em relação a pessoas identificadas como brancas, mas também em relação a pessoas identificadas como pretas. Como na Amazônia brasileira a escravidão foi principalmente indígena e caboca (a escravidão africana e afrodescendente foi mínima, principalmente em sua parte ocidental) não recaiu sobre os pretos o estigma da escravidão da mesma forma que em outras regiões. Preto no Amazonas tem uma imagem mais associda a alguém de fora e ser de fora por muito tempo foi algo valorizado. A imagem do preto esteve associada especialmente à do imigrante militar. Os governadores por muito tempo foram indicados pela capital do país e um deles, o militar Eduardo Ribeiro, um cafuzo maranhense filho de escravos, foi possivelmente o primeiro governador afrodescendente do Brasil.

Voltando a São Paulo, onde manifestações de hostilidade têm sido noticiadas com certa freqüência, o emprego ampliado do termo xenofobia também passa a enganadora impressão de que os nordestinos sejam novatos na história deste estado. Nordestinos já estavam presentes em São Paulo desde o período colonial, bem antes da chegada ao Brasil dos ancestrais de muitos que se vêem como ‘típicos paulistas’. Este emprego do termo também pode ser útil aos separatistas que desejam tornar nordestinos realmente em estrangeiros, que desejam a nacionalidade e a cidadania destes brasileiros nascidos no Nordeste e de seus descendentes desvalorizadas.

Em um filme postado no site YouTube, antes de ser eleita presidente, Dilma Rousseff aparece afirmando que “Em Vidas Secas [livro do escritor alagoano Graciliano Ramos] está retratado todo o problema da miséria, da pobreza, da saída das pessoas do Nordeste para o Brasil”. O que esperar dos próximos quatro anos diante desta cultura da divisão que tem sido oficialmente promovida e institucionalizada no país?

Leão Alves é médico e secretário geral do Movimento Nação Mestiça. E-mail leao_alves@yahoo.com.br

Os textos postados assinados por seus autores e os noticiosos e de outros sites lincados são de inteira responsabilidade dos mesmos não representando no todo ou em parte posicionamentos do Nação Mestiça.

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