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O racismo de Voltaire

Os textos abaixo são exemplos da contribuição do movimento humanista Iluminismo ao racismo. O filósofo francês François Marie Arouet (1694-1778), mais conhecido como Voltaire, ataca um dogma cristão: todos os humanos têm uma origem comum. O pensador laicista coloca as diferentes raças humanas como diferentes espécies. É um aspecto do antropocentrismo (que seria melhor intitulado ‘brancocentrismo’) que se contrapôs ao teocentrismo cristão. 

As diferentes espécies de homem

Descendo sobre este montículo de lama e não tendo maiores noções a respeito do homem, como este não tem a respeito dos habitantes de Marte ou de Júpiter, desembarco às margens do oceano, no país da Cafraria, e começo a procurar um homem. Vejo macacos, elefantes e negros. Todos parecem ter algum lampejo de uma razão imperfeita. Uns e outros possuem uma linguagem que não compreendo e todas as suas ações parecem igualmente relacionar-se com um certo fim. Se julgasse as coisas pelo primeiro efeito que me causam, inclinar-me-ia a crer, inicialmente, que de todos esses seres o elefante é o animal racional. Contudo, para nada decidir levianamente tomo filhotes dessas várias bestas. Examino um filhote de negro de seis meses, um elefantezinho, um macaquinho, um leãozinho, um cachorrinho. Vejo, sem poder duvidar, que esses jovens animais possuem incomparavelmente mais força e destreza, mais idéias, mais paixões, mais memória do que o negrinho e que exprimem muito mais sensivelmente todos os seus desejos do que ele. Entretanto, ao cabo de certo tempo, o negrinho possui tantas idéias quanto todos eles. Chego mesmo a perceber que os animais negros possuem entre si uma linguagem bem mais articulada e variada do que a dos outros animais. Tive tempo de aprender tal linguagem e, enfim, de tanto observar o pequeno grau de superioridade que a longo prazo apresentam em relação aos macacos e aos elefantes, arrisco-me a julgar que efetivamente ali está o homem. E forneço a mim mesmo esta definição:

O homem é um animal preto que possui lã sobre a cabeça, caminha sobre duas patas, é quase tão destro quanto um símio, é menos forte do que outros animais de seu tamanho, provido de um pouco mais de idéias do que eles e dotado de maior facilidade de expressão. Ademais, está submetido igualmente às mesmas necessidades que os outros, nascendo, vivendo e morrendo exatamente como eles.

Após ter passado certo tempo entre essa espécie, desloco-me rumo às regiões marítimas das Índias Orientais. Surpreendo-me com o que vejo: os elefantes, os leões, os macacos e os papagaios não são exatamente como eram na Cafraria; mas o homem, esse parece-me absolutamente diferente. Agora são homens de um belo tom amarelo, não possuem lã, mas têm a cabeça coberta de grandes crinas negras. Parecem ter sobre as coisas idéias totalmente contrárias às dos negros. Sou, portanto, forçado a mudar minha definição e a classificar a natureza humana sob duas espé­cies: a negra com lã e a amarela com crina.

Mas, na Batávia, em Goa e em Surata, ponto de encontro de todas as nações, vejo uma grande multidão de europeus. São brancos, não possuem lã ou crina, mas cabelos louros bem soltos e barba no queixo. Mostram-me também muitos americanos, que não possuem barba. Eis minha definição e minhas espécies de homem bastante ampliadas.

Em Goa encontro uma espécie ainda mais singular do que todas essas. Trata-se de um homem vestido com uma longa batina negra, dizendo-se feito para instruir os outros. Todos esses homens que vedes, diz-me ele, nasceram de um mesmo pai. E, então, conta-me uma longa história. No entanto, o que diz esse animal soa-me bastante suspeito. Informo-me se um negro e uma negra, de lã negra e nariz chato, engendram algumas vezes crianças brancas, de cabelos louros, nariz aquilino e olhos azuis, se nações imberbes vieram de povos barbados e se os brancos e as brancas engendraram povos amarelos. Respondem-me que não, que os negros transplantados, por exemplo, para a Alemanha continuam produzindo negros, a menos que os alemães se encarreguem de mudar a espécie, e assim por diante. Acrescentam que um homem instruído nunca diria que as espécies não misturadas degeneram, a não ser o Padre Dubos, que disse tal besteira num livro intitulado Reflexões sobre a Pintura e sobre a Forma etc.

Quer me parecer que agora estou muito bem fundamentado para crer que os homens são como as árvores: assim como as pereiras, os ciprestes, os carvalhos e os abricoteiros não vêm de uma mesma árvore, assim também os brancos barbados, os negros de lã, os amarelos com crina e os homens imberbes não vêm do mesmo homem.

[Nota de Voltaire: Todas essas diferentes raças de homens produzem juntas indivíduos capazes de se perpetuar, o que não pode ser dito a respeito das árvores de diferentes espécies. Mas teria havido um tempo em que só existissem um ou dois indivíduos de cada espécie? Isto ignoramos totalmente].

Voltaire, Tratado de Metafísica, cap. I (Os Pensadores). São Paulo: Abril, 1978, p.62,63.

Beleza, Belo

Perguntem a um sapo o que é a beleza, o belo admirável, o to kalón. Responder-vos-á que é a fêmea dele, com os seus dois grandes olhos redondos, salientes, espetados na pequenina cabeça, um focinho largo e achatado, barriga amarela, dorso acastanhado. Interrogai um preto da Guiné: para esse, o belo é uma pele negra, oleosa, os olhos sumidos nas órbitas, venta esborrachada.

Interroguem o diabo: dirá que o belo é um par de cornichos, quatro garras afiadas e um rabiosque enrolado. Consultem, por fim, o filósofo: responder-vos-á por uma algaraviada desco­nexa, numa gíria arrevesadíssima; é-lhes indispensável algo de conforme ao arquétipo do belo em essência, ao to kalón.

Um dia assistia eu a uma tragédia na companhia de um filósofo. “- Como isto é belo!” ­ exclamava ele. “- Mas onde está a beleza disto?” – perguntei-lhe. “- Está em que o autor atingiu a finalidade que pretendia.” No dia seguinte o tal filósofo tomou um purgante que lhe fez grande efeito. “Atingiu a finalidade”, comentei. “Ora, aí está um purgante belo!” Então percebeu que não se pode dizer que uma purga é bela e que para darmos a qualquer coisa o título de beleza será indispensável que vos cause admiração e prazer. Concordou comigo que a tal tragédia lhe proporcionara esses dois sentimentos, e que consistia nisso o to kalón, o belo.

Fizemos uma viagem pela Inglaterra: ali vimos representar a mesma peça, traduzida na perfeição; pois obrigou a bocejar todos os espectadores. “Oh! Oh!” exclamou o nosso filósofo, “o to kalón não é o mesmo para ingleses e franceses.” Concluiu, depois de refletir maduramente no caso, que o sentimento do belo é coisa muito relativa, do mesmo modo que aquilo que é decente no Japão é indecente em Roma, e o que está em moda em Paris é detestado em Pequim; e desistiu de elaborar um longo tratado sobre o belo que em tempos projetara fazer.

Voltaire, Dicionário Filosófico (Os Pensadores). São Paulo: Abril, 1978, p.110.

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