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Preconceitos sobre preconceito – Leão Alves

Que as palavras são poderosas não é difícil provar, basta observar as transformações sociais que costumam seguir às mudanças na capacidade humana de se comunicar. Como tudo que é poderoso, as palavras são também perigosas pois podem servir como instrumentos de manipulação de idéias e de formação de opiniões. Uma breve vista sobre a palavra preconceito pode nos revelar como inserindo num termo conotações e significados mais ou menos aproximados, ou relacionados, pode-se transformá-lo num instrumento de propaganda. Isto aparece nos dicionários após a expressão ‘por extensão’.

Há uma clara distinção entre as palavras preconceito e discriminação, porém a confusão no emprego dos dois termos é rotineiramente observada entre pessoas de todos os níveis de instrução, incluindo-se aquelas que atuam na mídia. Essa confusão pode ter surgido da proximidade freqüentemente observada entre situações de discriminação e as concepções preconceituosas que costumam criá-las. Assim, um empregador que sempre evita contratar funcionários surdos para sua empresa ou indústria movido pela crença de que todos os deficientes sejam sempre menos produtivos que os não deficientes, em qualquer função, é um exemplo que nos serve. Nesta situação preconceito e discriminação estão associados, e há uma crença antecipada e generalizadora por parte de quem discrimina em relação aos que discrimina – a crença antecipada e generalizadora é o preconceito e a ação a que ela conduz é a discriminação.

Pode, porém, ocorrer de o preconceito dar-se individualmente. Um professor pode achar que certo aluno seja estudioso simplesmente porque tem cara de estudioso; uma fã pode crer que seu ídolo é tão másculo quanto os personagens que interpreta; um estudante pode estar convicto que seu professor de psiquiatria seja uma pessoa equilibrada; um tribuneiro pode crer que Marx era imune a qualquer sentimento burguês. Estas crenças podem não gerar discriminações nem serem generalizadoras, mas como no caso dos primeiros elas estão associadas a rígidas expectativas.

Certamente não estamos afirmando que não seja razoável alguém esperar que Karl Marx tivesse valores distintos dos de Cecil Rhodes, ou que Arnold Schwarzenegger tenha um comportamento tão másculo quanto o personagem Conan que interpreta; o preconceito está na crença que descarta absolutamente possibilidades reais. A razoabilidade, palavra que permite certo leque de conceituações, está ligada aqui a um misto de coerência e experiências anteriores.
A base psíquica dos preconceitos talvez esteja relacionada a estruturas mentais que visam permitir respostas mais rápidas e menos dispendiosas a situações potencialmente ameaçadoras. Um caçador pode atirar na direção de um ponto de onde escutou um som “suspeito”. Pessoas dentro de uma loja podem acotovelar-se e pisotear-se fugindo de um barulho que lembra explosão. Podemos nos assustar com morcegos e temer suas mordidas, embora a maioria deles seja herbívora e provavelmente assustem-se mais conosco do que nós com eles. Essas aversões e medos podem ou não surgir de experiências anteriores.

O que se passa pela mente das pessoas é impossível conhecer diretamente, às vezes nem elas mesmas percebem suas ações discriminatórias como movidas por preconceitos. Isso impede que se afirme com toda certeza que determinada ação discriminatória ocorreu por preconceito, exceto se o agente o declarar abertamente ou for possível concluir de suas palavras. Acusar alguém de preconceito por esta tomar atitudes discriminatórias pode manifestar preconceitos do próprio acusador.

Pode também ocorrer de uma pessoa agir discriminatoriamente, estando livre de idéias preconceituosas acerca do discriminado. Um professor sul-africano branco vivendo à época do apartheid poderia não lecionar para estudantes negros não por crer que os negros tenham menor capacidade de aprendizagem, mas simplesmente por submeter-se conscientemente às leis segregacionistas do regime – na mesma linha, não é infundado dizer que provavelmente muitos professores brancos lecionem hoje para negros tendo em si essa crença. Esse exemplo não é tão distante, nem tão excepcional como pode parecer. Um publicitário brasileiro, mesmo gostando da estética negra, nipônica ou indígena, pode excluir pessoas desses grupos por pressão dos seus clientes. Não é preciso eu citar exemplo: o leitor pode abrir a revista ou jornal que estiver neste momento mais à mão e passar a vista pelas propagandas. Exceto se a revista for destinada a determinado grupo, como a Raça e a Made in Japan, ou se a propaganda for governamental, encontrará muito pouca ou nenhuma propaganda paga por grupo privado cujos modelos não sejam brancos – é indiferente se a revista é uma “progressista” Isto É, ou uma conservadora Seleções. O publicitário do exemplo certamente está sendo discriminador sem ser preconceituoso ou racista. Esta é a clássica condição do colaboracionista.

Outras situações também ocorrem em que a palavra preconceito é confundida como atribuição de valores. O preconceituoso acredita que outros possuam determinadas qualidades mesmo não havendo provas para sua crença. É possível, porém, alguém atribuir valores a terceiros arbitrariamente, ou seja, qualificar alguém por sua própria vontade, não pela crença de possuir aquela pessoa essencialmente aquela qualidade. Quando o Gal. Georg A. Custer afirmou, por exemplo, que “índio bom é índio morto”, ele não estava afirmando nesta frase que os índios de forma generalizada fossem covardes ou ladrões, ou qualquer outra qualidade depreciativa, mas sim afirmando que para ele era bom que os índios fossem mortos. Pode-se acusar esta frase de racista, e de discriminadora, mas não é rigorosamente uma frase preconceituosa. Nesta linha não são preconceituosas frases como “Não gosto de argentinos”, “Homossexualismo é errado”, mas são preconceituosas frases como “Os argentinos são arrogantes”, “Os homossexuais são covardes”, etc. Nas primeiras são expressos sentimentos e valores pessoais, nas segundas ocorre generalização. Frases como “todos os japoneses são trabalhadores”, “os negros são bons de bola”, “os judeus são corajosos”, são também preconceituosas, mas, por motivos óbvios, ninguém reclama quando o preconceito é elogioso.

Leão Alves é médico e ex-presidente do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro (Nação Mestiça).

Publicado originalmente no site Fusão Racial.

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