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E assim um povo se fez – Maria Eduarda Fagundes

Quando os trilhos da estrada de ferro chegaram do sul, atravessando rios e terras, o arraial que medrava à beira do Rio Grande se desenvolveu. Casas, comércio, igreja, farmácia, tudo surgia em função da estação de trem da Mogiana. A princípio eram construções simples de pau-a-pique e adobe que delineavam os caminhos. Com o passar do tempo e a riqueza circulando se levantavam bonitos casarões, ocupados pelos fazendeiros nos finais de semana, quando vinham das roças para as cerimónias cívicas e religiosas, ou para resolver os problemas do quotidiano.

Porém, era na zona rural, nas grandes fazendas, muitas abertas nas sesmarias ganhas pelos bandeirantes, que a produção e o fervilhar da vida ocorria. As terras férteis eram rasgadas para o cultivo do café, arroz, algodão, e cana-de-açúcar. Matas eram derrubadas para abrir espaços para formar pasto para o gado. Pousos eram montados para dar abrigo aos tropeiros que iam e vinham de todo o lado, trazendo e levando, comerciando animais. Migrantes de outras bandas, principalmente da Bahia, chegavam procurando trabalho. Italianos, portugueses, imigrados de vários países, eram contratados para o plantio e colheita. E com a estação de trem que algumas fazendas tinham, novidades estrangeiras e chiquês da capital chegavam para os ricos fazendeiros. Barbearia, armazéns, capela, eiras, casas de agregados e empregados se espalhavam pela propriedade constituindo uma mini-cidade. Casamentos endogâmicos ou arranjados e vizinhança de amigos e parentes formavam uma rede social de apoio e poder.

A festa de casamento do filho do prestigiado Coronel Manuel Brito, português de nascimento, foi um grande acontecimento, comentado em toda a região. Desde as autoridades religiosas, civis e políticas da cidade, não esquecendo o delegado, o doutor, vizinhos, agregados e empregados, todos foram convidados. A cerimónia foi na fazenda do Coronel, ao ar livre, debaixo de um lindo caramanchão coberto por cachos de Lágrimas-de-Cristo, e chão varrido e tampado por sumptuosos tapetes persas, importados, numa demonstração de poder financeiro do proprietário.

Para alimentar toda aquela gente, um pequeno exército de empregados matou e preparou bois, capados, galinhas. Para fazer os bolos, doces e quitandas, contrataram quitandeiras afamadas da redondeza. Vinho, sucos naturais, licores caseiros, feitos lá mesmo, jorravam sem parcimónia, para a alegria dos convivas. Foi um dia e uma noite de ininterruptos festejos! O matrimónio do Juca foi assunto na boca do povo por muito tempo.

Ao casar, Sinhá Chica trouxe consigo duas negras para servi-la. Domingas, a mais nova, era exímia passadeira de ferro a carvão em brasas, deixava os ternos brancos de linho do patrão, engomados com água e polvilho de mandioca, lisinhos, sem nenhuma ruga, como a vaidade do coronelzinho exigia. Babiana, a mais velha, cozinheira, e também parteira, havia aprendido o ofício com a mãe escrava. Muitas crianças da região haviam nascido pelas mãos dela.

Alta, morena, não muito escura, cabelos grossos, encaracolados, divididos ao meio denotavam já alguma mestiçagem. Musculatura firme e bem delineada, olhos matreiros, negros, faceira, Domingas atraía olhares. Logo o Sinhô percebeu que o melhor seria quanto antes casá-la. Fulô, negro forçudo, vindo da Bahia, filho de escravos, foi o escolhido com o consentimento de todos. Era peão de gado.

Quando Sinhá Chica foi para a fazenda dos pais, quase um mês antes da data do nascimento do seu segundo filho, para lá dar à luz e passar os primeiros tempos do pós-parto, como era de praxe, por aquelas bandas mineiras, levou Babiana consigo. Na sede da fazenda do Coronel Manuel, onde morava o jovem casal, Juca ficou 2 meses de solidão, consolados com os afagos e favores da mulata passadeira, que àquela altura já tinha dois moleques, filhos de Fulô. Nove meses depois que sinhá deu à luz, nasceu José, o terceiro filho de Domingas. Como era frequente, o Coronel Juca, agora o dono da fazenda, pela morte de seu pai, apadrinhou o menino. Dava-lhe tratamento diferenciado, à medida que crescia. José aprendeu a ler e escrever. Vestia-se com roupas e calçados que recebia dos patrões, quando os filhos da Sinhá não mais os queriam.

José era alto, moreno claro, nariz bem proporcionado, olhar penetrante, movimentos lentos e comedidos. Falava pouco e baixo, determinado, ambicioso, queria crescer na vida. Em nada se parecia com Fulô, a não ser pela queda que tinha pela música. Tocava violão de ouvido, sem conhecer uma só nota musical. Pé-de-valsa, nos bailes da roça, nunca recebia uma recusa das moças que tirava para dançar.

No inicio da colheita do café uma nova leva de imigrantes italianos chegou pela estrada de ferro, para o serviço do coronel. Era uma gente pobremente vestida, de língua estranha, que olhava os empregados, a maioria negros e mestiços, de uma maneira desconfiada e arredia. Ao recebê-los, José, agora capataz, não deixou de perceber, no meio da turma, uma bonita jovem, de cabelos e olhos claros, castanhos, que tudo olhava com curiosidade e espanto.

Com o passar do tempo o grupo se integrou aos novos hábitos e costumes do lugar, aprendeu a língua, criou amizades. As labutas diárias e as dificuldades compartilhadas tornaram imigrantes e agregados parceiros.

Aos domingos, após tirar o leite e ir à missa na capela, quando o vigário vinha da cidade, havia futebol. Nos dias de festa, os arrasta-pés levantavam poeira a noite inteira. Nos casos de doença ou acidentes, os pacientes iam de trem para Uberaba, onde havia hospitais.

Laura e José se conheceram e se enamoraram. E num desses bailes de final de semana, numa discussão por ciúmes, José acabou por derrubar num rapaz italiano que se engraçara com a jovem. Irritado, o pai dela proibiu o namoro. Inconformado com o afastamento, José foi à casa da Laura e pediu-a em casamento. Revoltado e entristecido ouviu um veemente não como resposta.

Sabendo do acontecido, o Coronel Juca mandou chamar o italiano. E, mesmo adivinhando a resposta, perguntou-lhe qual era o motivo dele não permitir o casamento da filha com José, moço tão bom e já com uns porquinhos para começar a vida!

– Coronel, disse o estrangeiro, esse rapaz é filho de um negro e eu não quero ter netos mestiços na minha família! Ouvindo isso, Juca encarou o empregado e desferiu, seco: – Pode deixar José casar com tua filha, ele tem sangue de branco, ele é meu filho. Ou então procura trabalho noutras freguesias, bem longe, porque as que estão por perto, não vão te dar serviço, são todas de parentes e amigos!

José e Laura tiveram cinco filhos, todos claros, uns mais, outros menos, todos criados na fazenda que José comprou numa cidade próxima, com o dinheiro que ganhou com o comércio dos seus porcos e os trabalhos de empreito que ele fez para o «padrinho». Seu pai Fulô morreu de velhice aos 105 anos, e sua mãe Domingas com 89, vítima de uma pneumonia quando, já esclerosada, se perdeu num brejo, à procura do seu Sinhô!

Talvez a miscigenação tenha sido a maior herança que o Português deixou para o Brasil. Através dela ocupou a terra e gerou um povo diversificado, amigável e tolerante, o povo brasileiro.

De A bem da Nação.

Posted in Artigos, Português.


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