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Desmascarando o indigenismo – Leão Alves

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Existe um contraste entre o que aparece na mídia indigenista e o que o indigenismo realmente é – e que não aparece na grande mídia. Para mostrar este contraste, artigos indigenistas são muito úteis. Vamos analisar trechos de um deles, “Os índios, nossos mortos”, de Luiz Ruffato, publicado no jornal El País.

No artigo, o autor faz uma análise da situação dos índios no Brasil. Segundo ele,  o “descaso com a questão indígena” seria a “principal causa da violência”:

“De forma ilegal, alicerçados na força das armas e da corrupção, os fazendeiros avançam pelas florestas, transformándo-las em lavoura e pasto”.

Em outra passagem do artigo, o autor afirma:

“O Brasil, país racista e preconceituoso, sempre demonstrou profundo desprezo pelos povos indígenas”.

Este tipo de afirmação aparece muito no discurso indigenista. Apresenta o Brasil como sendo, tanto agora quanto no seu passado, um local extremamente hostil aos índios. É desenhada uma imagem ‘do oprimido e do opressor’ que aparece de forma muito repetitiva.

Em 2013, na abertura da Feira do Livro de Frankfurt, que teve a assistência dos brancos Michel Temer e Marta Suplicy, o autor opinou em seu discurso:

“Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.”

Este trecho do discurso aumenta o entendimento do artigo citado e também é útil para mostrar outro aspecto do discurso indigenista.

A quantidade de índios que habitavam o Brasil à época da chegada dos portugueses é incerta; uns afirmam que havia cinco milhões, outros menos. Certo é que no discurso indigenista aparece usualmente a associação da origem do mestiço brasileiro a algo negativo, especialmente com a violência, uma forma de desestimular os mestiços a se identificarem como mestiços, além de outros objetivos.

O indigenismo tenta apagar que houve também uma participação, uma vontade, um interesse entre os índios de se misturarem, de se mestiçarem com os brancos – e também de pretos africanos e brancos europeus, de ambos os sexos, em se misturarem – passando a idéia de que não teria havido interesse entre aqueles. Existe o interesse em passar esta imagem: todas as relações, sem exceção, teriam surgido de um processo de imposição.

Este discurso visa a uma conseqüência prática: se não houve interesse entre os índios e entre os pretos em se mestiçarem com os brancos sempre, sem exceções, os índios e pretos do passado (especialmente no Período Colonial e até a abolição da escravatura) não teriam tido  – tentam justificar – qualquer responsabilidade pelo surgimento dos mestiços. Isto, mesmo se fosse verdadeiro (e não é), não retiraria dos mestiços direitos relacionados a origem índia ou preta, mas a propaganda costuma visar primeiro aos sentimentos do que à razão e uma versão sem qualquer fundamento histórico pode passar, com muito barulho e grito, como se verdadeira, como uma arma de brinquedo num assalto à razão.

Isto pode parecer bobo, mas colaborou para colocar apartheid para dentro ordem legal brasileira e milhões de mestiços para fora de territórios exclusivos para raça índia (índio, deve-se lembra, também é um termo racial).

O objetivo psicológico é o de fazer com que os mestiços não se identifiquem como mestiços: que os cabocos (os descendentes de índios e brancos), os mulatos (os descendentes de pretos com brancos) e os cafuzos (os decendentes de pretos com índios) passem a associar a mestiçagem que lhes gerou com algo negativo e a se identificar com uma raça: ou com a raça índia, ou com a raça preta, ou com a raça branca.

Outra conseqüência desse discurso: índios, pretos e brancos teriam mais motivos para se orgulharem de suas origens do que os mestiços.

Esta propaganda tem sido difundida principalmente por grupos globalistas de esquerda e neoliberais.

Este discurso também interessa a brancos que não desejam a mestiçagem. Nem todo branco é contra mestiçagem; no Brasil, em regra não. Brancos mestiçaram-se com índias e pretas voluntariamente e houve governantes brancos que estimularam a mestiçagem.

A consideração que o mestiço deve ter em relação a seus ancestrais deve ser a mesma; não se hierarquiza ancestrais. A dignidade de nossos ancestrais é a mesma. O discurso antimestiço, porém, conduz para que se escolha entre as raízes.

Diferentemente do que disse o autor, não houve simples assimilação dos índios, mas mestiçagem. Na mestiçagem, o produto da mistura de um ou mais grupos resulta num terceiro distinto dos que lhe deram origem; na assimilação, um grupo desaparece absorvido por um outro que permanece basicamente inalterado. O mestiço brasileiro é distinto dos índios que havia aqui antes de Cabral, dos pretos africanos trazidos pelo escravismo e dos brancos portugueses. Não é por acaso que o sotaque do brasileiro é tão distinto do sotaque dos portugueses, p. ex.

Para o branco que é contra mestiçagem interessa que índios, pretos e brancos vivam isolados. Esta foi a ideologia do apartheid sul-africano. Para este branco que é contra mestiçagem é bom este discurso contra os brancos do passado, pois passa a idéia de que ele está sendo neutro.

Passa também a idéia de que quem faz o discurso não é um elemento da relação. Observa-se muito isto em textos indigenistas. Usualmente há um autor branco que aparece como elemento neutro; escreve sobre os índios, sobre os pretos, sobre os mestiços, como se ele também não fosse uma parte interessada do discurso, enquanto branco que é contra mestiçagem; como se esta condição não tivesse politicamente qualquer influência no que escreve.

Leão Alves é médico e ex-presidente do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro (Nação Mestiça).

Leia este e outros artigos no Portal do Zacarias.

Posted in Artigos, Leão Alves, Português, Verwoerdismo | Indigenismo.


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