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Mestizo message

Há incoerência em ser contra cotas raciais e ser a favor de “territórios indígenas”; porém, enquanto as cotas raciais têm sido denunciadas como racistas, os territórios exclusivos para índios não têm recebido o mesmo tratamento.
João Ubaldo Ribeiro, no artigo ‘O negro e o macaco’, no jornal O Globo, afirma que “os americanos é que têm obsessão por raça (lá nós, brasileiros, somos ‘hispânicos’), nós temos é a glória e o privilégio de ser o único país em que homens e mulheres de todas as raças se misturaram e misturam e onde a raça, Deus há de ser servido, ainda terá o lugar que merece, ou seja, nenhum”.
Não é bem assim. Este artigo, como costuma acontecer na maioria dos textos contra a ideia de raça publicados no Brasil, não atenta para o fato de em nosso país haver os denominados “territórios indígenas”, que não guardam semelhanças com os bantustões do apartheid sul-africano por acaso.
A propósito, mais adequada do que “territórios indígenas” seria a expressão “territórios índios”. Diferentemente do que aparenta, ‘indígena’ não é o adjetivo correspondente a índio. Indígena significa nativo, endógeno; nativo também é o povo mestiço, pois descende dos índios originais. ‘Indígena’ é de origem latina, enquanto ‘índio’ deriva de indiano.
Os índios, os brancos portugueses colonizadores e os pretos trazidos pelo escravismo realmente se misturaram no Brasil, mas há ainda milhões de não mestiços descendentes de imigrantes, ou imigrantes eles mesmos.
Índio é um termo racial. Existem portugueses pretos, existem ingleses amarelos, angolanos brancos, mas no Brasil não existem guaranis brancos ou ianomâmis pretos. Ser índio significa estar identificado com as populações pré-colombianas, em distinção aos brancos e pretos, que chegaram depois, e aos mestiços, originados dos índios.
O território é “indígena” da mesma forma que seria branco ou preto.
Mas a maioria dos índios são miscigenados, alguém pode argumentar. Sim, muito provavelmente todos são miscigenados, mas nossa legislação assimila o mestiço nas raças: para ter acesso aos direitos raciais, o mestiço deve ser “desmestiçado” e classificado como índio, da mesma forma que os pardos devem ser classificados como negros, pelo Estatuto da Igualdade Racial.
Os nazistas também fizeram algo assemelhado para delimitar quem seria considerado ariano, e ficar, e quem não, e ser expulso.
“Territórios indígenas” são territórios raciais, dos quais os mestiços têm sido expulsos da mesma forma que os mestiços da África do Sul eram separados dos bantustões criados pelos regime do apartheid para os indígenas pretos daquele país. O governo sul-africano chegou a criar um bantustão para mestiços na Namíbia.
Muitos se empolgam acreditando que negar a existência de raças seja a melhor forma de combater o racismo. Isto não ocorre assim. Na Bolívia, o governo masista de Evo Morales, que é índio aimará, a fim de apagar politicamente os mestiços do país – alguns se organizando em movimentos autonomistas, como a Nação Camba – alegou que mestiços não existiam porque raças não existiriam.
No Brasil o petismo faz o mesmo, mas a mídia governista e filopetista prefere não abordar o racismo no indigenismo.
Enquanto isso, em todas as regiões do país mestiços, brancos e pretos estão sendo expulsos do local onde vivem por não serem índios. Para disfarçar o racismo, os branco-indigenistas tentam levar a questão para o lado étnico – como se limpeza étnica fosse mais nobre do que discriminação racial. Hendrik Verwoerd, o idealizador do apartheid sul-africano, também tentou pintar racismo com cor-de-rosa.
Mestiços têm direito de origem sobre as terras de seus ancestrais, o que grande parte não sabe – e muitos não desejam que saibam.
A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) lançou recentemente a quinta edição do Prêmio Lévi-Strauss. Segundo o Edital, “O Concurso é uma homenagem à contribuição de Claude Lévi-Strauss à Antropologia”.
Lévi-Strauss foi um antropólogo branco europeu que defendia que mestiçagem provocava decadência e que seria preciso manter os povos em contato mínimo e suficiente para a sua preservação. Inspirou-se noutro racista, Arthur de Gobineau, que também esteve no Brasil, onde registrou com desgosto a miscigenação. Gobineau era um dos autores preferidos de Hitler.
A política de territórios índios exclusivos colocada na Constituição de 1988 por intelectuais, religiosos e políticos indigenistas de esquerda – em grande parte, senão em sua maioria, brancos – é um legado segregacionista de Lévi-Strauss.
Há muitos artigos na mídia enaltecendo o Brasil como um “país em que homens e mulheres de todas as raças se misturaram e misturam”. Infelizmente são ainda escassos os que vão além do “somos todos mestiços”. Frases deste tipo têm a mesma função de um #somostodosmacacos: chamam a atenção, mas são micos inofensivos.
Leão Alves é médico e secretário-geral do Movimento Nação Mestiça.

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